Como ficar rico

A indústria das “dicas para ficar rico” vende uma ilusão conveniente. E isso sim é oportuno para realmente enriquecer coachs, autores de livros milagrosos e cristalizar a ideologia meritocrática no seio social. 

Não vou adentrar aqui no tal mindset vencedor, no basta querer e esforçar, na mudança de pensamento, etc. Basta partirmos da premissa de que a cada dez conselhos dos especialistas, nove se resumem a economizar

Isso não é enriquecer, é apenas sobreviver com mais controle. Para quem ganha um ou dois salários mínimos, a margem é tão estreita que a economia, mesmo que fransciscana, pouco altera o destino. Obviamente que é melhor que endividamento, que perda da racionalidade e controle. Mas não vai te possibilitar ampliar o padrão de consumo. Ao contrário, exige redução no curto e médio prazo, para uma possível e hipotética elevação futura. Mas isso não responde a pergunta central: enriquecer para quê, a que modo, a que custo? 

Também não basta ampliar fontes de renda. Na prática, isso costuma significar trabalhar 10, 12 ou 18 horas por dia para um ganho incremental pequeno, ao custo da saúde, da formação continuada, do tempo (vida) e da qualidade de vida. O sujeito vira refém do próprio esforço. Isso não é mobilidade social, é exaustão crônica. Talvez possível por um período, mas não como algo sustentável ao longo do tempo. Ou seja, precisa abrir mão de muita coisa, sobretudo tempo (e o que se pode fazer com ele), mas acumular recursos futuros.

Ou seja, enriquecer é um

fenômeno muito mais complexo. Tem muitas camadas envolvidas: psicológica, econômicas, políticas, culturais, envolvem o indivíduo, o sistema e a sociedade. Envolvem recursos disponíveis, padrões de comportamento, até mesmo o acaso. É o sonho de quase todos e a realidade de pouquíssimos. 

Mas o ponto central que se evita dizer é que os fracassos da maioria sustentam o sucesso da minoria. Quem parte de uma base sólida tem probabilidade muito maior de ampliar sua folga financeira. Quem começa do zero, patina. O sucesso existe, mas é exceção. O problema é que a exceção é vendida como regra para manter vivo o ciclo do sonho.

Por isso, enriquecer não é apenas uma questão individual ou meritocrática. É estrutural e social. Um filho de família rica, com rede de contatos, referências, capital cultural, bons colégios e tempo para se desenvolver, tem chances altíssimas de sucesso. Já o filho do pobre precisa vencer inúmeras barreiras invisíveis. Mesmo com talento e esforço, suas possibilidades reais e até o que ele acredita ser possível alcançar (o que chamam hoje de nível de permissão) são limitadas.

Entram aí fatores históricos, raciais, estruturais e o próprio processo de formação do país, marcado por privilégios concentrados em poucas famílias e grupos. Somam-se as histórias individuais: perdas familiares, doenças, acaso, diferenças de perfil, segurança emocional, educação financeira, e também o fato incômodo de que parte significativa da riqueza acumulada deriva de práticas no mínimo eticamente questionáveis.

No pano de fundo, vive-se em um mundo profundamente desigual, onde uma parcela ínfima concentra fortunas obscenas enquanto bilhões enfrentam privação alimentar. Ainda assim, no plano individual, o desejo de enriquecer raramente nasce da necessidade material. Ele é movido por ambição, status e poder. 

Abaixo um gráfico que ilustra a desigualdade do Brasil. A interpretação básica, rasa e resumida em uma frase é clara: O Brasil é pobre e desigual. Apenas 1% das famílias (não das pessoas) tem renda superior a mais de R$ 13.000,00. Para quem tiver interesse, analise a curva de Lorenz, Índice de Gini e outros indicadores que mostram a desigualdade.

https://www.coladaweb.com/sociologia/desigualdades-sociais-e-as-classes

É legítimo querer melhorar de vida. O problema é que isso ocorre em um ambiente de competição permanente, de comparação, de superação do outro, e não de crescimento coletivo. Dados mostram isso.

O sucesso passa a ser estar acima, não estar melhor. Vira medida de valor moral, de esforço, de virtude e até de bênção divina, como bem descreveu Weber ao analisar a ética protestante e o espírito do capitalismo.

Diante disso, não há receita. Alguns apostam na sorte (loto, bets, etc); outros trabalham até o limite, outros entram na criminalidade, outros exploram a natureza, (como o exemplo histórico da exploração da madeira em muitas cidades do Paraná, desmatamento de biomas, como na Amazônia, garimpo poluente. E aqui existe um limite não apenas ética, mas físico). E isto nem sempre ocorreu ou ocorre de forma legal (ou ética): invasões, grilagem, danos ambientais, etc. 

Podemos recortar um período histórico qualquer e encontraremos exemplos: as terras do atual Brasil foram divididas em capitanias hereditárias, depois sesmarias, doadas a políticos influentes. Outras terras foram invadidas a força, outras ocupadas, e assim chegamos a atualidade com os reflexos desse contexto.

Há ainda aqueles que abandonam esse jogo e escolhem modos alternativos de vida, embora sejam bolhas inseridas dentro deste contexto de exclusão e competitividade. Não há resposta única, nem certo ou errado absoluto. Existe algo intrínseco, que move o indivíduo e influencia o coletivo, e algo extrínseco, no coletivo, que modula o indivíduo. Uma interação de mão dupla.

E seguimos nessa esteira, esquecendo que a vida é curta. Focados no que não temos, não no que somos ou no que de fato precisamos. Ainda tropeçamos no conceito de semelhante, de necessidade, de viver. O ego prevalece. A acumulação é a regra. E, mesmo assim, insistimos em nos chamar de sapiens.

Filosoficamente, não existe um caminho único, uma verdade absoluta para quase nada. Tampouco para responder qual o caminho para uma sociedade melhor, mais justa, mais verdadeiramente humana. Mas um componente, provavelmente não pode ficar de fora: a dignidade humana. Esta deveria ser a busca primordial. Está estampada em muitas leis, inclusive nas constituições de muitos países e tratados internacionais. Talvez uma essência pulsante inerente ao ser humano.

Kant era um dos pensadores que trazia esta questão ao afirmar que o ser humano é um fim em si mesmo, nunca um meio. Dignidade não pode depender de sucesso. Uma sociedade melhor começa quando direitos básicos não dependem de mérito, sorte, talento ou herança. Infelizmente, hoje vemos até uma dose de ódio contra políticas sociais que garantem o básico a certos grupos sociais, dando-lhes o direito mínimo de ter dignidade e decidir ou não sujeitar-se a trabalhos degradantes em troca de um prato de comida, como muito ocorreu na história, inclusive do Brasil.

Outros valores como igualdade também são fundamentais, e modernamente rechaçados por alguns. Cooperação é apenas um termo bonito. A competição é a tônica valorizada. Ainda priorizamos o ter do que o viver bem e o ser. Argumentos e conceitos básicos, existentes nos textos mais antigos de diversas religiões, mas que ainda hoje não encontram materialidade na prática.

Ou seja, ficar rico é bom, oportuno. Acaricia o ego. Mas poucos ficam. A maioria, apenas administra ou potencializa a riqueza que derivou do passado. Os casos casos isolados são a exceção. Os meios usados para a conquista que também são importantes na análise, se a empreitada for bem sucedida, a história apaga os erros e cria uma narrativa épica e bela (bandeirantes, por exemplo, são herois). 

Ficar rico é o desejo de todos, mas porque estamos imersos em uma estrutura com esse valor como dogma. A questão é: é possível, de forma sustentável, ética, digna, humana, que todos enriqueçam ? Se a resposta for não, não estaríamos no caminho errado ? Enquanto isso, o fracasso da maioria sustenta o sucesso da minoria. Afinal, a condição de existência do capitalismo é a desigualdade e o consumo sem freio.


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