Lembro-me que na infância, um vizinho entusiasta da música gaúcha tradicionalista, ouvia algo assim: "tem coisas que não me agrada, mas minha paciência atura", e seguiam os versos da música do Crioulo dos Pampas (Carlos Roberto Monteiro), mas o refrão que se repetia é o que virou jargão popular: "nego bom não se mistura".
Pelo teor da música, trata-se de uma forma de enaltecer o gaúcho autêntico, como dizem hoje, o homem raiz, que não se corrompe por opiniões externas, que é patrão de sua própria vida.
À primeira vista, para quem não a conhece, pode entender que a frase fala de segregação racial, por exemplo, mas de fato é comportamental e ética.
Da mesma forma, a palavra nego neste contexto, representa o peão, sujeito comum, não tendo qualquer relação com cor ou etnia. Deriva do cancioneiro antigo, culturalmente anterior às atuais categorias de análise identitárias.
Para quem a ouve no churrasco, em meio aos gritos do jogo de truco, sem analisar calmamente sua semântica, parece apenas expressão de gosto pessoal. No entanto, tratar o significado deste jargão apenas como "folclore" ou adágio é subestimar sua densidade. Ela carrega verdades sociológicas incômodas, estruturais e persistentes.
A música de certa forma é conservadora, revelando um padrão hierárquico de comportamento, até mesmo um machismo estruturante. Também uma forma de resistência aos modismos e àquilo que nos afasta da essência valorizada por determinado grupo, no caso, o homem campeiro.
Por outro lado, analisando apenas o refrão e trazendo como ponto de apoio para uma análise da sociedade atual, capitalista e urbana, percebe-se que as pessoas em geral buscam diferenciação e destaque. Não é um desvio moral isolado, é um comportamento social recorrente. Mas a ideia de pertencimento sempre caminha junto com a ideia de exclusão.
Pertencer a um grupo implica, geralmente, não pertencer a outro. A distinção é o mecanismo que organiza hierarquias simbólicas e materiais. O discurso da igualdade pode até ser celebrado em abstrato, mas na prática cotidiana o que se busca é exclusividade.
E aqui o ponto não é julgar eticamente nem questionar se é humanamente intrínseco ou socialmente estimulado tal comportamento ou valor. Não se trata de questionar a individualidade, algo mais intrínseco e subjetivo, a qual é construída justamente na relação com o outro e influenciada parcialmente por estes símbolos e instrumentos de poder econômico e social.
A reflexão se refere ao plano sociológico, perpassando pelo aspecto econômico e porque não, territorial (relações de poder) ou geográfico.
Tomemos um exemplo quase didático, que ilustra, embora haja inúmeros outros. "Todos" querem ir para Balneário Camboriú. A praia se tornou um signo de sucesso, lazer elitizado, vida boa. O lugar é o mesmo, mas a experiência jamais é igual. Enquanto o rico chega de helicóptero, pousa discretamente, se hospeda na cobertura de um arranha-céu, passeia de lancha e observa o mundo de cima, o povão enfrenta trânsito interminável, congestionamento, filas, areia lotada, disputa por espaço e enfrenta (e faz) barulho constante.
O espaço geográfico é compartilhado, mas o território é fragmentado e distinto. O mesmo chão sustenta mundos sociais que não se tocam.
Obviamente, há exceções evidentes. Os novos ricos, ainda ávidos por reconhecimento, ou aqueles com perfil de ostentação, desfilam com carros esportivos, roupas chamativas e comportamentos performáticos. Eles transitam entre os espaços populares e os espaços de elite, mas não os dissolvem. Pelo contrário, reforçam a distinção ao escancarar que agora pertencem a outro patamar social, que conseguem adquirir e consumir "mercadorias" distintas. E tudo é mercadoria no capitalismo.
O mesmo padrão se repete nos espaços urbanos. Nos condomínios fechados, vemos (quando as muralhas não impedem e privatizam até o olhar) amplas áreas verdes, silêncio, paisagismo planejado, controle de acesso, segurança, ordem, limpeza, etc. A vida é organizada para minimizar o contato com o imprevisível.
Nas periferias, casas pequenas empilhadas, ausência de áreas verdes, espaços aproveitados ao máximo de forma improvisada, cores, arquitetura, tudo fora de uma padrão definido. O som do forró, do funk e do sertanejo disputam espaço, não apenas como gêneros musicais, mas como expressão cultural e da individualidade em territórios comprimidos.
O que para uns é ruído, para outros é identidade. O contato com o outro é frequente, exigindo tolerância, acordos, mas também gerando conflitos, etc. Davi Harvey trabalha com esta construção contraditória do espaço.
O capitalismo opera exatamente nesse ponto de tensão. Ao mesmo tempo em que leva as pessoas aos locais de significado do consumo, como a praia chique, o shopping sofisticado, o restaurante da moda, ele cria mecanismos internos de distinção (o tipo de transporte que você chega; a área vip, o drink que você toma, e até o atendimento diferenciado, etc.)
O acesso é prometido, e alimenta a esperança e a resiliência, mas a experiência plena é reservada a pouquíssimos. O sistema vende a ideia de que todos podem chegar lá, mas organiza o caminho de forma que poucos cheguem de fato e menos ainda permaneçam.
Por isso, a igualdade plena nunca é um horizonte real dentro da lógica capitalista. Não porque as pessoas sejam naturalmente desiguais, mas porque a própria engrenagem depende da diferença.
Se todos ganhassem dez mil reais, todos teriam acesso aos mesmos lugares. E isso, para os milionários (ou para a burguesia que herdou poder político e simbólico) seria insuportável. A exclusividade perderia valor. O que as torna melhores, especiais, e potencializa o acesso às oportunidades que reforçam as diferenças seria perdido.
O luxo só existe porque não é universal. O prestígio só se sustenta porque não é compartilhado.
Por isso o dinheiro acumulado nunca é o suficiente. A partir de certo patamar social não se busca o acesso de bens para sobreviver, nem mesmo para ter conforto, mas para se diferenciar.
Diante disso, criam mecanismos cada vez mais sofisticados para produzir distância. Não se trata apenas de pagar em uma bolsa o que um trabalhador não ganha durante toda vida laboral. Há ainda barreiras físicas, como condomínios, clubes privados, resorts exclusivos. Barreiras simbólicas, como linguagem, hábitos, códigos de vestimenta, repertório cultural. Barreiras econômicas, como preços artificialmente inflados, taxas de acesso, serviços personalizados.
A desigualdade não é um efeito colateral do sistema, é um de seus combustíveis centrais. A acumulação infinita e a desigualdade são os motores do capitalismo.
Por isso, nunca é o bastante acumular dinheiro; mesmo quando as 12 pessoas mais ricas do mundo tem mais riqueza acumulada que 4 bilhões de pessoas mais pobres, a lógica de acumulação continua.
Não se trata apenas de ter mais, mas de garantir que outros tenham menos. A riqueza extrema não busca conforto, busca separação. Busca assegurar que a mistura não aconteça.
Nesse sentido, a frase inicial deixa de ser mero preconceito ou arrogância individual. Ela se revela como síntese brutal de uma ordem social e econômica. “Não se misturar” não é apenas escolha pessoal, é regra não escrita de funcionamento da sociedade.
Misturar ameaça hierarquias, dilui os privilégios e expõe as contradições. A distância protege, por isso é confortável viver nas bolhas, acreditar que o outro não existe ou que ele é o desajustado, falho, incompetente, fraco, etc.
A luta por igualdade, nesta perspectiva, não é apenas uma disputa por renda, mas por espaços, por reconhecimento, por direito à presença, nas mais diferentes escalas.
Enquanto a diferenciação for tratada como valor e não como problema, a desigualdade seguirá sendo apresentada como algo natural, quase inevitável. E eis porque o mito da meritocracia ganha ressonância na boca desta gente, mas também de quem se identifica com ela: acreditam que foi o esforço que fez com que 1% das pessoas mais ricas do Brasil detenham em torno de 63% da riqueza nacional. (clique aqui para acessar a fonte se alguém duvida)
Talvez o grande desafio não seja fazer todos chegarem aos mesmos lugares, até porque, se mais pessoas chegarem, o tal lugar exclusivo deixa de existir, porque é muito mais simbólico, do que físico, do que material.
É preciso então questionar por que alguns lugares (ou mercadorias) precisam ser inacessíveis para que façam sentido, para que tenham valor. Enquanto isso ocorrer, a igualdade será sempre vista como ameaça, nunca como processo de evolução ou objetivo social e econômico.
É preciso então questionar por que alguns lugares (ou mercadorias) precisam ser inacessíveis para que façam sentido, para que tenham valor. Enquanto isso ocorrer, a igualdade será sempre vista como ameaça, nunca como processo de evolução ou objetivo social e econômico.
E assim, nas mais diferentes escalas e perspectivas, os "negos bons" não se misturam, mas onde isso fica mais evidente é na dinâmica socioeconômica, embora essa frase se repita na música do homem simples e nas ações das elites inacessíveis.


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