O pato dos dentes de ouro

Este texto, entre outros de diversos autores, foi selecionado para compor a coletânea Hypnosis (2026). O Livro físico está disponível para venda na UICLAP

A década de 1980 foi um tempo de contrastes e de mudanças rápidas. Era uma época que exigia ação física: no trabalho dos mais velhos e nas brincadeiras das crianças. Não só movimentos dos dedos em uma tela de estímulos virtuais. Nosso lazer era na estrada que levava até a escola, na rua em frente às casas, nos rios e nas matas que haviam ao redor. A fantasia surgia espontânea e se misturava com brincadeiras reais.

Éramos crianças, com dez, alguns com doze anos, num bairro de casas simples, com ruas de terra, calçando chinelos, roupas surradas, às vezes herdadas do irmão. Eu, o Adão, o Élcio, o João e outros que surgiam a depender do dia, nos reuníamos para brincar. Uma esquina era ponto de encontro. Outra virava campo de futebol, espaço para bete-ombro, bolas de gude, pipa, esconde-esconde, etc. Em cada época uma brincadeira se destacava. Mas o principal espaço de aventura era o rio.



O córrego não era grande nem profundo. Se largado ao destino, mal daria na cintura. Mas o transformávamos. Com paus, pedras e barro fazíamos uma represa. No trecho onde nadávamos, a mata ciliar resistia. Árvores diversas, sombra, natureza. Havia sapos, grilos, pássaros e o som da água batendo nas pedras. Os fundos de vales ainda não eram totalmente cercados por casas e pela ocupação irregular.


No rio, João, o mais medroso, sempre dizia: Se aparecer cobra eu corro. A gente ria, mas sabia que era verdade. Ele tinha medo de tudo, mas não perdia uma aventura. E tinha espírito engenhoso. Adão era o oposto: corajoso, decidido, o primeiro a entrar na água, a arriscar subir, a pular. Eu era cauteloso e observador. Via o rio ficando mais fundo, a água mais limpa, nossas mãos calejando. Testava e avaliava se o trampolim estava firme, se a profundidade do rio era compatível.

Quando o inverno chegava, o rio ficava frio demais. Às vezes, sentávamos em sua beira apenas para apreciá-lo. Élcio preferia jogar bola. Eu sempre gostei de florestas e de estar na natureza. Cruzando o rio havia um morro coberto de vegetação, o Mourão. Para mim, parecia o Everest, uma montanha desafiadora que eu dominava em minha imaginação.

Explorávamos o Mourão, ora escalando os paredões de pedra, balançando em cipós, ora apenas percorrendo os carreiros. Cada trilha era território novo conquistado. Sempre havia lugares misteriosos para ir: toca da raposa, ninho de urutau, tapera assombrada e os perigos que amplificávamos para nos sentir corajosos de enfrentá-los.


A mata era parquinho e supermercado imaginário: lugar de colher amorinhas, palmito (varana), ariticum, jarivá, etc. Naquele tempo, não se falava muito em consciência ambiental. Alguns até caçavam passarinhos, repetindo atitudes errôneas dos mais velhos. Porém, ironicamente, aprendemos que isso era errado e passamos a respeitar a vida, apesar de ainda vermos com naturalidade destruírem florestas inteiras, poluírem rios, acabarem com o habitat de centenas de animais, pela sede de lucro.


Outra diversão das noites de inverno era fazer fogo em frente às casas, sapecar pinhão, assar milho verde e contar causos. Élcio era o guardião das histórias herdadas do avô. Falava de lobisomem, alma penada, boitatá. E, talvez a mais curiosa, a história do pato dos dentes de ouro.

Essa causava silêncio. Não era só medo: era curiosidade. Dizia o Élcio, como quem realmente acreditava:

- Lá em cima do Mourão aparece um pato diferente. Ele surge do nada, para em sua frente e sorri mostrando os dentes de ouro antes de te perseguir. O brilho é tão intenso que ofusca tua vista. Muitos contam que já viram quando estavam sozinhos por lá. Ele atira suas penas como flechas pontiagudas em quem o desafia.

Eu balançava a cabeça em negação. Queria dizer que como toda ave, pato tem bico, não dentes. Aprendemos isso na escola, em Biologia. Até que um dia falei.

Adão retrucou: - Justamente por isso é assombração. Quem enfrentar e seguir ele encontra uma panela de ouro. Ele testa para ver quem é merecedor.

Deu o horário de ir embora, e se fomos, alguns com medo, outros com planos. Logo decidimos: iríamos procurar o pato dos dentes de ouro.

Sábado de sol. Resolvemos trilhar o Mourão em busca do tal pato. Fomos mais longe que o normal e conforme íamos chegando em lugares que não costumávamos ir, a trilha ia ficando mais suja e desafiadora. A mata se fechava. O chão estava úmido. Havia chovido nos dias anteriores.

João andava dez metros pelos carreiros, ouvia um barulho qualquer e gritava “olha o pato”, e corria quebrando taquara no peito. Nas primeiras vezes quase corremos junto.

- Foi o vento - dizia Élcio.

- Ou foi o pato - provocava Adão.

Continuamos a expedição. Nada de pato. Só mato, pássaros, insetos e cheiro de terra molhada. Até que aconteceu!

Caminhávamos em fila. Adão na frente, eu atrás, depois o Élcio seguido do João. À esquerda, entre moitas, algo brilhou. Um ponto dourado que ofuscava a vista, conforme se movia.

Adão parou. Eu parei. O corpo inteiro ficou tenso.

O brilho voltou, movendo-se como algo vivo. Um barulho leve veio dali.

- Viram? - sussurrei.

- Vi - respondeu Adão.

Élcio atrás de um tronco tentava ver melhor.

O brilho surgiu de novo, sumiu, voltou mais à frente e desapareceu. Fizemos silêncio. Esperamos surgir um pato com dentes de ouro reluzentes. Iríamos correr ou enfrentar, não sei. Mas nada. Só silêncio.


De repente, galhos quebrando: era João fugindo. Adão foi até o ponto do brilho. Eu o segui. Nada ali: só pedras úmidas, raízes e um filete de água escorrendo.

- Reflexo da água - decretou Élcio. Concordei. Provavelmente o sol que passava entre a copa das árvores refletia no filete de água. E conforme o vento balançava os galhos, o reflexo se movia. A própria água correndo tinha seu som característico.

Mas será que era só isso?

Adão discordou: - O pato não quis aparecer. Ele só aparece se estiver sozinho.

O brilho ficou na memória. Não dava para afirmar que vimos o pato, mas também não podemos dizer que era só reflexo do sol.

Voltamos cansados, sujos, porém, mesmo sem achar pato ou panela de ouro, voltamos mais “ricos”. À noite, tudo virou história.

- Eu vi, era dourado - dizia Adão.

- Pra mim era o sol - eu respondia, ainda duvidando de que fosse apenas reflexo, afinal, ouvimos barulho, e não parecia ser da água.

- Se viesse pra cima de mim eu ia erguer na paulada - dizia João, que havia fugido.

O pato continuou existindo nos causos e no imaginário. A dúvida reforçava o encantamento.

Hoje entendo. O rio represado ensinava mais que natação: mostrava que existem mundos prontos e mundos em construção.

As expedições eram nossa forma de experimentar o mundo real, de construir autonomia, de conhecer limites, avaliar riscos e de aprender que o território também educa e nos influencia. Atualmente, crianças conhecem o mundo pelos vídeos. O contato com a natureza é superficial, mediado e controlado como mercadoria oferecida.

Talvez hoje a infância tenha mais coisas materiais, mais conforto, tecnologia, menos escassez, mas também menos simbolismo e encantamento. No fundo, o pato dos dentes de ouro sempre foi nossa capacidade de acreditar que o mundo tinha mistérios e sonhos e que valia a pena ir atrás deles.

Nenhum comentário:

Postar um comentário