Enfim, podemos olhar a questão sob diversos prismas e inter-relacionar incontáveis variáveis. Mas, na forma de relato e observação pessoal, trago apenas uma reflexão subjetiva e superficial, que, ainda assim, pode abrir campo para a análise de uma situação bastante complexa.
Estive estes dias no interior de Rebouças e ouvi uma pessoa comentando que Flávio Bolsonaro estava muito à frente de Lula na apuração dos votos do primeiro turno, mas que, depois daquela interrupção na apuração, por motivos técnicos, os dois teriam voltado a ficar equilibrados. Isso teria suscitado desconfiança.
Ouvi praticamente a mesma história depois, numa conversa de panificadora. Comentei com um amigo as duas coincidências e ele me mostrou a origem: um reels de rede social, inclusive, com certo caráter sensacionalista.
Eu, por estar inserido em outra bolha, sequer tinha visto aquilo. Mas o episódio me chamou a atenção porque mostra como determinadas narrativas circulam. Começam nas redes, chegam aos grupos de família, passam para conversas informais e acabam adquirindo aparência de informação verdadeira que todo mundo está comentando. E muitas vezes, gera-se a ideia de que este grupo detém a verdade, que quer ser oculta pelos demais em um eterna conspiração.
Vi hoje outra frase circulando: “Apoio o governo dos ricos porque trabalho duro justamente para ser um deles”.
Podemos discutir sociologicamente, economicamente e até psicologicamente essa afirmação. Mas talvez esse nem seja
o ponto principal. A frase é curta, provocativa e
produz identificação. Não precisa ser um argumento consistente para funcionar como mensagem política. Some-se a ela, tantas outras frases que viram clichê como provérbios da sabedoria popular, que muitos curtem, compartilham e concordam.
E aí vejo uma dificuldade importante para a esquerda.
Para desconstruir uma frase dessas, precisa explicar desigualdade, mobilidade social, concentração de renda, interesses de classe, barreiras históricas à ascensão social, dados econômicos e contradições do sistema.
Mas até a própria História, enquanto ciência que questiona, confronta versões e analisa criticamente as sociedades, é frequentemente atacada e desqualificada quando seus resultados contrariam determinadas convicções.
Para piorar, a resposta exige mais tempo e atenção do que a frase original. Exige disposição e esforço intelectual. E quem já está politicamente alinhado provavelmente não tem interesse em ouvir uma longa explicação racional e fundamentada sobre por que aquela frase é frágil.
Até porque uma explicação coerente abre campos para análise, discordância (total ou parcial) e discussão de dados e fatos, enquanto uma frase de efeito nasce justamente para ser simples, absoluta, inquestionável e facilmente reproduzida.
A própria Ciência é construída pela formulação de hipóteses, pela confrontação com evidências, pela confirmação ou refutação. É, em essência, o oposto das convicções que se tornam imunes a qualquer questionamento.
Isso me faz pensar que a disputa política não acontece apenas no campo da razão e dos dados. Ela também acontece por símbolos, emoções, identidade, comunidade e pertencimento. Em muitos momentos, ela extrapola a lógica e a razão. Infelizmente, ultrapassa até a ética.
Historicamente, a esquerda teve uma presença muito forte nas organizações, nos sindicatos, nas associações, nos bairros e nas comunidades. Era uma política aparentemente muito mais territorial, construída no contato cotidiano e na organização coletiva. Percebe-se que essa capilaridade perdeu força em alguma medida.
Mas também não se pode imaginar que a solução seja simplesmente voltar ao modelo antigo.
A disputa política mudou. Ela continua acontecendo no território, nas organizações, nas comunidades e nas relações concretas de trabalho e de vida, mas existe hoje um enorme campo de disputa nas redes virtuais, com características próprias.
E as redes favorecem aquilo que é rápido, simples, emocional e facilmente compartilhável. Uma frase de efeito, um corte de poucos segundos, uma imagem ou uma narrativa aparentemente simples podem alcançar milhares de pessoas antes que alguém tenha tempo de verificar a informação ou compreender a complexidade do assunto.
A mentira pode ser curta. A verdade frequentemente precisa de contexto.
Isso não significa abandonar a complexidade, os dados ou a racionalidade. Significa compreender que comunicação política também é saber traduzir ideias para ambientes em que velocidade, identificação e capacidade de compartilhamento têm enorme importância.
Por isso, acho que a esquerda precisa se qualificar não apenas para responder às demandas que aparecem, mas para antecipá-las. Precisa recuperar presença nos espaços tradicionais de organização e, ao mesmo tempo, aprender a disputar os novos espaços onde as pessoas formam opiniões, constroem identidades e compartilham informações.
Obviamente, o assunto é muito mais denso.
A política também está presente nos espaços religiosos e nas relações entre religião e poder. Está na pressão de grupos econômicos, na atuação de empresários, nas organizações sociais, nos meios de comunicação e, cada vez mais, nas redes digitais. Está, enfim, em praticamente todos os espaços nos quais pessoas e grupos disputam influência.
Sobre a relação entre religião, poder e política, desenvolvi outra reflexão, “Entre o Púlpito e o Palanque”,
disponível neste blog.
A questão essencial, portanto, é: como impedir que instrumentos legítimos de mobilização, pertencimento e organização social sejam transformados em mecanismos de manipulação, sobretudo quando a velocidade da informação reduz o espaço para a dúvida, o contraditório e a verificação?
Talvez essa seja uma das grandes disputas políticas e culturais do nosso tempo. E, para a esquerda, isso significa adaptar-se às novas formas de se fazer política, sem necessariamente abandonar suas raízes e sua essência, que residem no contato com os movimentos sociais, na organização coletiva e na luta por direitos sociais, mas incorporando as ferramentas próprias deste novo ambiente.
Não se trata de substituir uma forma de militância por outra, nem de reproduzir os mesmos mecanismos de manipulação que se pretende combater. Trata-se de disputar esses espaços preservando princípios como pluralidade, ética, informação verificável, liberdade de pensamento e respeito ao contraditório.
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https://revistamarieclaire.globo.com/direitos-das-mulheres/noticia/2026/09 /eleicoes-um-em-cada-quatro-homens-acredita-que-emocao-atrapalha-voto-feminino-aponta-pesquisa.ghtml |
Isso também pode ser uma forma de evitar a formação de nichos cada vez mais fechados, radicalizados e impermeáveis ao diálogo, nos quais a convicção passa a valer mais do que o fato e o pertencimento mais do que a realidade (a Terra é plana, Vacinas matam, mulheres não devem votar, femicídio não existe, etc.)E o termo “ferramentas” não foi escolhido por acaso.
Quando determinados campos de comunicação, mobilização e formação de opinião passam a ser dominados por grupos hegemônicos, ferramentas sociais podem se transformar em armas políticas. E, a partir daí, podem deixar de servir à organização e ao interesse coletivo para atender a projetos particulares de poder.
Talvez o desafio esteja justamente em ocupar esses espaços sem permitir que eles nos transformem naquilo que criticamos.
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