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Manifestação religiosa e cultural da Recomendação das Almas

Recomendação das Almas: um olhar sobre essa manifestação religiosa e cultural que clama por resgate em tempos de desencantamento da quaresma.

O desencantamento da quaresma, entendido como o esquecimento ou a falta de respeito, mesmo que este esteja interpretado de forma atrelada aos aspectos religiosos, nos faz refletir não apenas sobre a perda de parte da cultura popular, que se desintegra com a perda das características rurais das cidades, mas da cultura religiosa e de valores inerentes à natureza humana: como o encantamento com o desconhecido, a religiosidade (entendida em uma perspectiva ampla, que abrange os valores humanos e consequentemente sociais) e o respeito com as tradições. E respeitar as tradições não deixa de ser, quase que intuitivamente, uma forma de preservar a cultura.

No município de Rebouças – PR, especialmente na comunidade do Barreiro, e nas comunidades Faxinalenses do Salto e do Marmeleiro, ocorria uma espécie de manifestação popular, de caráter religioso, chamada de recomendação das almas.
Segundo o site embu.art.br, esta manifestação se fundamenta na crença católica do purgatório e da eficácia da oração para encaminhar as almas dos falecidos ao descanso eterno e à salvação. Daí a tradição que das épocas medievais nos ficou, de rezar e pedir pelas almas do purgatório, ritual ainda subsistente institucionalmente na Igreja Católica. O povo, porém, desejando participar dessas orações, independentemente da igreja, criou o fato folclórico – a Recomendação de Almas. 

O site Jangada Brasil conta que, em 1515, na cidade de Coimbra, os encomendadores “no silêncio da noite, ao som de uma campainha, despertavam os cidadãos com terríveis vozes”. Além da antiga origem ou influência católica, especialmente portuguesa, outros estudos apontam a influência africana, quando no período escravocrata e posteriormente, se mantendo em algumas comunidades quilombolas, a Recomendação das almas era realizada.Segundo Paes e Souza (2007) com a decadência da mineração, no final do século XVIII, muitos escravizados foram abandonados ou alforriados, transformando-se em camponeses, autônomos do ponto de vista econômico e religioso. O poder religioso era independente do clero oficial e concentrava-se nas mãos de leigos. Dessa forma, desenvolveu-se um catolicismo popular marcadamente diferente do catolicismo romano e repleto de influências africanas, e a Recomendação das Almas era uma de suas práticas. 

Os jesuítas também foram atores nesse processo de formulação cultural. Ainda para Paes e Souza (2007) eles contribuíram com a introdução da manifestação no Brasil. Como o presente texto não objetiva, de forma alguma, fazer uma reconstrução histórica da prática no Brasil, tampouco, chegar a sua gênese, se buscará então dar uma visão geral, simplificada e local (região de Rebouças –PR), do que se constitui a prática da Recomendação das Almas, também denominada de Lamentação, Encomendação, Recomenda; terno [das almas], etc. e especialmente, relembrar do caráter devocional que movia os participantes para essa prática, mas sobretudo, destacando a necessidade do resgate dessa prática pela sua importância enquanto manifestação cultural e de sua relação com o modo de vida de diversas comunidades, especialmente rurais.

Superando o caráter religioso, fatores como a vida rural que predominava na região, o respeito às tradições, repassadas de geração em geração, a religiosidade do povo, a simplicidade e a fé, são elementos que tem significado também sob o ponto de vista cultural.

Essa manifestação, apesar de ser realizada em alguns velórios, ocorria principalmente nas quartas e sextas-feiras de quaresma, quando um grupo de pessoas saia pelas ruas cantando (ou rezando) algumas cantigas lúgubres, chegando em algumas casas. Comenta-se que o grupo de pessoas visitava as casas que tem crucifixos de madeiras pregados nos portões, orando e cantando em frente às residências, e o morador, com a casa totalmente fechada, após o término do rito os acolhe. São visitadas várias casas por noite (fala-se de cumprir as 7 estações), o que inclui cemitérios e capelas, definidas pelo capelão (líder do grupo).

Destaca-se que o capelão é o responsável por coordenador o ofício e dirigir os demais rezadores, substituindo a figura de um religioso oficial.

Entre outras variantes regionais, que vão desde o nome (encomenda, recomenda, terno, etc.), até as vestes (cabeça coberta ou não), em algumas regiões os recomendadores usam instrumentos musicais. Entretanto, o mais comum, citado em quase todas as fontes e verificado in loco na região tomada como exemplo,  está a matraca, utilizada pelo capelão para marcar o início do terno e pedir as orações. Outras variantes regionais está na participação ou não de crianças, de mulheres, no tipo de cantigas, todas geralmente lúgubres, etc.

Um artigo que demonstra algumas das variações regionais da procissão pode ser encontrado no link a seguir. Trata-se do texto Encomendação das Almas: resistência cultural em São Roque de Minas, o que pelo próprio título indica que enfatiza a variante da prática realizada na região, mas sem deixar de traçar aspectos gerais.

Até mesmo no aspecto religioso há variante. Alguns estudos, como o acima citado, consideram que se canta PARA as almas. Outros indicam que se reza em FAVOR das almas. O video abaixo traz um exemplo desta manifestação realizada na Comunidade Quilombola Paiol de Telhas, em Reserva do Iguaçu - PR.




Assim, independente do aspecto religioso, é uma manifestação cultural, que a expressa riqueza cultural das regiões e as especificidades de seu povo e que merece ser preservada e sobretudo valorizada, pois seria um resgate cultural de uma tradição antiga, pois a maioria dos integrantes do grupo eram pessoas de idade elevada e as mudanças sociais, econômicas, a urbanização, a institucionalização da fé, o desencantamento da quaresma, como cita José Carlos Ferreira (no livro em link Encantamento da Sexta-Feira Santa - manifestações do catolicismo no folclore brasileiro, que merece ser lido), a vida noturna, a urbanização e suas luzes, enfraqueceram a prática e retiraram o caráter misterioso da prática.

Isso demonstra que as pessoas do interior, sobretudo humildes e “simples” são detentoras de conhecimentos e culturas que muitas vezes são ignoradas pelo restante da população e que acabam se perdendo.
Não se trata de fechar hermeticamente estas práticas, colocando-as livres das influências modernas, mas de resgatá-las e preservá-las com parte do patrimônio cultural. 
O blog Cultura digital relembra que podemos afirmar que o ritual da Recomendação das Almas apresenta-se como espaço para espiritualidade, mas também como espaço para o lazer, para estabelecer novos laços de sociabilidade e solidariedade ou fortalecer os já existentes, reforço dos valores hierárquicos e de gênero e até formas de ostentação. 
Enfim, é uma das muitas práticas que os grupos sociais organizados, sobretudo aqueles relacionados com os aspectos culturais, com as ruralidades, com as práticas sociais e solidárias, secretarias de cultura, grupos de terceira-idade, e até mesmo religiosos, poderiam se envolver e resgatar.


1º ENCONTRO BRASILEIRO DE RECOMENDAÇÃO DAS ALMAS - CAMPO BELO DO SUL - SC.


ENTREVISTA: RECOMENDAÇÃO DAS ALMAS - PARTE 1


Fontes bibliográficas e materiais adicionais sobre o assunto estão disponíveis em:


SOUZA, Marina de Mello e; PAES, Gabriela Segarra Martins. A 'recomendação das almas' na comunidade remanescente de Quilombo de Pedro Cubas. São Paulo: 2007. USP. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-01122009-160957/pt-br.php

 Lenda da recomendação das Almas. 

Revista Jangada Brasil: a cara e a alma brasileiras.

Cultura digital: Recomendação das Almas em Santa Catarina





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