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Agricultura Comercial e Desenvolvimento Social

Se você  abasteceu seu carro hoje, agradeça à Petrobrás. Se tomou água, agradeça sua Companhia de Saneamento. Você já fez isso hoje ?

Essa leitura, de início (apenas de início, espero eu !) pode parecer sem lógica. Afinal, todos pagam, e bem, para ter a  disponibilidade desses serviços e os fornecedores auferem lucros com essa atividade. É exatamente essa ideia que me ocorreu quando vi, um dia desses, uma frase enaltecendo a atividade agrícola. Nela dizia, não me recordo se exatamente nesses termos: Se você se alimentou hoje, agradeça a um produtor rural.

Apesar das diferenças entre a agricultura familiar e a agricultura comercial da grande propriedade, discordo da afirmação. Hoje, a atividade agrícola como qualquer outra atividade econômica, visa o lucro. Nenhum produtor inicia uma safra se não tiver, pelo menos, a expectativa de obter algum retorno. Inclusive a própria escolha do produto a ser cultivado é orientada pela expectativa de um maior lucro, tanto que muitos agricultores, por uma questão de viabilidade e atratividade financeira, optam pelo plantio do tabaco, um gênero nada alimentício; na verdade, até nocivo, em sentido mais amplo possível.
Entretanto, a referida frase me convidou a uma reflexão menos regionalizada e mais ampla.

No final do século XVIII, o economista inglês Thomas Malthus, analisando a população desenvolveu uma teoria que basicamente previa que a ela iria aumentar em uma proporção muito maior que a produção de alimentos necessária a sua subsistência. É a Teoria Malthusiana, convenientemente ainda utilizada em alguns discursos. Essa previsão, de certa forma não se concretizou.

Malthus não contou com os avanços tecnológicos que proporcionaram uma elevação na produção agrícola sem precedentes. Além disso, nessa época, a taxa de natalidade nos países analisados era elevada. Porém, mudanças ocorridas no século XX contribuíram para a redução do crescimento populacional, como por exemplo: o processo de urbanização, a inserção da mulher no mercado de trabalho, métodos contraceptivos e campanhas de planejamento familiar promovidas por diversas entidades.

Entretanto, apesar da redução da taxa de crescimento populacional e da elevação da quantidade de alimentos produzidos, a fome ainda é um problema catastrófico no mundo.

O Brasil, por exemplo, segundo dados da FAO (2004), de modo geral, apresenta uma taxa média de 10% da população com desnutrição. População desnutrida para a ONU, se refere às pessoas que não tem acesso a alimentos suficientes para suprir suas necessidades básicas diárias de calorias. Alguns países sul africanos chegam a ter taxas superiores a 40%.

Na visão de Levon Boligian (2007), o problema da fome está muito mais relacionado ao modelo de desenvolvimento agrícola exportado dos países desenvolvidos, os quais impõem o plantio de culturas que interessam somente ao mercado externo do que à falta de alimentos.

Segundo este autor, as atividades agrícolas são desenvolvidas há mais de 10 mil anos pelos seres humanos visando sua subsistência. Entretanto, nos dois últimos séculos, com a consolidação da atividade industrial, as atividades agropecuárias se tornaram subordinadas às necessidades da indústria.

Isso exigiu uma produtividade maior e consequentemente um aperfeiçoamento das técnicas de produção, investimentos maciços, inclusive por parte do governo, uso intensivo de recursos tecnológicos, etc. caracterizando a agropecuária comercial moderna.

Ou seja, a agricultura, mais do que nunca, transformou-se em uma atividade econômica, regulada pelas leis do mercado e não pela necessidade de subsistência.

Para realizar essa atividade de forma viável, as propriedades exigem mão-de-obra especializada (engenheiros agrônomos, veterinários, operadores de máquinas sofisticadas, etc.), o que limita o número de empregados, além da substituição do trabalho humano pelo mecânico.

Basta verificar o que ocorreu em nossa região (PR, sul do Brasil): há 15 ou 20 anos atrás, mais ou menos, era comum a busca por pessoas para a colheita do feijão. Hoje, além da substituição do feijão por outras culturas em muitas propriedades, o trabalho é realizado em grande parte por máquinas. Esse contexto favorece a geração de novos problemas econômicos, sociais e inclusive ambientais. Os altos custos dessa forma de produção viabilizam apenas a sua utilização nas médias e grandes propriedades (ou empresas) rurais, que se concentram na produção de uma única espécie, geralmente àquela com melhor cotação e aceitação no mercado externo.

Além disso, esse modelo de modernização da agricultura, impõe o uso de sementes modificadas, e com elas, um pacote de insumos, cuja tecnologia é dominada por multinacionais, aumentando a dependência do produtor.

Essa conjuntura facilita ainda mais a concentração de terras, reduzindo a quantidade de gêneros alimentícios, considerando que as grandes propriedades concentram a sua produção em cereais geralmente exportados para países ricos, e o pior, in natura, impossibilitando que o país como um todo, obtenha as vantagens que poderiam provir se os produtos fossem industrializados, exportando algo com maior valor agregado, gerando emprego e renda (apesar de que atualmente, esse situação melhorou, mas o valor agregado ainda é relativamente baixo).


Pode-se afirmar, com base nesse contexto simplificado das complexas relações que orientam a produção agrícola no país, algo que todos sabem: é necessário que o pequeno produtor receba maiores incentivos, pois percebe-se que são as pequenas propriedades que contribuem com grande parcela, na geração de gêneros alimentícios de subsistência, principalmente na região sul, a qual historicamente apresenta uma menor concentração relativa de terras.

Entretanto, não se pode ser maniqueísta e considerar as grandes propriedades como vilãs. Enquanto as pequenas propriedades atendem a nichos de mercado, as grandes geram uma alta receita comercial para o país, valorosa tanto em termos monetários quanto estratégicos. O que falta porém, é atitude da classe  política (e geralmente capitalista) para abandonar o modelo agro-exportador e colocar o Brasil em uma posição de exportador de produtos industrializados. E mais ainda: orientar a produção para atender  às necessidades internas de subsistência da população (utopia ? !)

Provavelmente, isso não seria uma atitude meramente social, pois se encaixaria inclusive nos "ambiciosos" anseios capitalistas. E no meio de toda essa questão, milhões de brasileiros passam fome enquanto o país bate recorde de exportações de produtos agrícolas, incluindo o tabaco.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) divulgou em setembro de 2014, um estudo publicado em Roma (Itália), que o desperdício com alimentos no mundo pode causar cerca de US$ 750 bilhões anuais de prejuízo. Segundo este estudo,1/3 dos alimentos produzidos são desperdiçados.

Pelo relatório, 54% do desperdício de comida no mundo ocorre na fase inicial da produção –na manipulação, após a colheita e na armazenagem. Os restantes 46% de perdas ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Os produtos que se perdem ao longo do processo variam em cada região.

Isso mais uma vez ratifica o fato de que o problema principal não está apenas na produção de alimentos ou no modelo de produção, mas sim nas formas de distribuição desses alimentos, em toda cadeia produtiva, contrariando abordagens meramente ideológicas que criticam a grande propriedade rural.

Um comentário:

  1. O que eu queria não estava aqui mais entre no meu blog também www.camilleferigato.blogspot.com isto é verdade entre e comente.

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