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Tradicionalismo gaúcho no Paraná

Existe gaúcho nascido no Paraná ?

Pode parecer estranho atualmente essa pergunta, afinal, paranaenses são os habitantes do Paraná, e gaúchos, os habitantes do Rio Grande do Sul. Mas historicamente, nem sempre foi assim. O termo se refere não somente a um povo, mas a um modo de vida que antecede a atual divisão política dos estados, além de que, tudo depende do contexto em que se aplica determinada palavra, sem mencionar ainda as influências culturais que não conhecem fronteiras.

O texto que se segue buscou, a princípio, responder essa pergunta. Para isso, esboçou como justificativa o fato de que uma das aplicações do termo "gaúcho" serviu historicamente como designação para os povos que habitavam a região dos pampas (que abrange parte do atual território brasileiro, uruguaio, argentino, etc), não tendo nenhuma relação com a atual divisão política dos estados do sul, nem mesmo do Brasil, já que abrange terras da atual Argentina e Uruguai. Também buscou contemplar a dinâmica dos aspectos culturais e como se dá sua transmissão através dos contatos entre os povos, citando como exemplo, o tropeirismo (e o caminho das tropas, levando mercadorias, informações e cultura), as formas de arte (como as danças e as músicas) e as migrações, inclusive as mais recentes, promovendo um intercâmbio cultural.

Ressalta-se ainda que os tradicionalistas, como também são denominados, preservam a tradição não de um estado (RS - circunscrito a uma fronteira arbitrariamente definida), mas de um povo, de um modo de vida específico, com seus valores, tradições, que condiziam com a realidade social, econômica, política e cultural da época, valorizando suas raízes, as quais guardam diversos traços em comum, inclusive o da colonização, formação do povo, estruturação social e até econômica.

Sul riograndenses e paranaenses, para citar apenas dois exemplos, mantém valores e tradições rurais e campeiras em comum, guardam um povoamento com traços em comum, e como brasileiros, uma história em comum, inclusive de luta e resistência, o que não deveria causar estranheza o valor que muitos dão às tradições gaúchas, da mesma forma que ninguém estranha o fato do Brasil inteiro, em uma suposta identidade nacional, fazer do Carnaval, uma festa de todos, embora suas raízes, originalmente, não estejam na maioria dos estados. Além disso, podemos citar muitos exemplos de assimilação cultural que pouco ou nada mantém de raízes históricas conosco, mas que são plenamente aceitas (Punks, metaleiros, e tantas tribos urbanas, dia das bruxas, etc.). Isso para não se aprofundar na questão das culturas importadas e daquelas que surgem como modismos, transplantadas e direcionadas às massas, e não socialmente construídas por elas, com significado e riqueza.

UMA EXEMPLIFICAÇÃO HISTÓRICA 

Xote  7 passos
É comum em muitas cidades do Paraná, por exemplo a apreciação por parte das pessoas, da cultura gaúcha, seja através da associação em CTG's (invernada campeira ou artística), seja apreciando a música regionalista, os bailes, cavalgadas ou outros costumes como o chimarrão e o churrasco. Lembremos, porém, que mesmo dentro dos limites territoriais do Paraná, temos uma heterogeneidade cultural.


A historiadora Roseli Boschilia, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em artigo publicado no jornal Gazeta do Povo,  (procura-se uma identidade perdida entre gaúchos e paulistas) divide estado em pelo menos três territórios distintos que vivem quase que de maneira autônoma, o que quer dizer que todos são paranaenses, mas cultivam um estilo de vida bem diferente.

A primeira ocupação é a do Paraná tradicional (Curitiba e litoral): são paulistanos que desceram a região de São Vicente (SP) e passaram a ocupar o primeiro
planalto. “Eles trouxeram e cultivaram um tipo de vida por aqui. 

Depois vem o pessoal do Sul (Rio Grande do Sul) com o caminho das tropas. Eles têm um modo de falar, de se vestir e de se alimentar totalmente diferente dos outros e se estabeleceram na região da Lapa e Campos Gerais”, explica Roseli. 

Uma terceira ocupação acontece por volta dos anos 40 e 50, no Oeste: são os gaúchos que mi­­gram por conta da estrutura fundiária. Há ainda uma quarta ocupação que os historiadores chamam de Norte Pioneiro novo: foi a região “tomada” por fazendeiros de São Paulo. “Até os anos 60, o Paraná não tinha todo o território ocupado. Por isso é difícil criar uma identidade cultural 

Mas o que leva os paranaenses a cultuar as tradições ? E essas manifestações são hermeticamente gaúchas, ou melhor, sul riograndenses ?

Diante do exposto, verifica-se que a cultura é influenciada por
Rodeio Crioulo
diversos fatores. Ela não obedece fronteiras políticas, mas se relaciona com o passado histórico que alicerçou um território. Território onde se assenta determinado povo, que apesar de suas individualidades, mantém aspectos em comum que cristaliza sua identidade. E vai além, se refere às bagagens que as pessoas levam e trazem ao se deslocarem de um lugar para outro e que se modelam segundo as visões subjetivas de mundo de cada sujeito.

É justamente o estudo histórico que nos permite conhecer a sequência dos fatos que explicam a relação de um povo com sua cultura, cabendo talvez à sociologia dar uma luz a respeito dos fatores que impulsionam essa relação entre cultura, povo, território de abrangência e período histórico em que ela se materializa.

Quanto mais intensa tem se tornado as comunicações entre as pessoas, graças às inovações e à popularização das tecnologias, mais somos continuamente bombardeados (talvez ainda a TV tenha mais força) com “torrentes culturais” cada vez mais massivas. Ao mesmo tempo que temos a possibilidade de conhecer a cultura de diversos países, lugares, povos, e enriquecer nosso repertório cultural, essa cultura nos é repassada de modo superficial, de modo vago, sem os fundamentos que lhe dão sustentação, sentido e valor. São uma informação, talvez um conhecimento, mas não uma tradição. 


Tradição vêm do Latim traditio, um derivado de tradere, “entregar, passar adiante”. E este verbo se formava por trans-, “além, adiante”, mais dare, “dar, entregar”. Tradição atende ao significado de “passar algo a alguém”, como costumes, cerimônias, hábitos, características de um grupo.

Pior ainda quando estas culturas são transmitidas carregadas de ideologia, que lhes descaracterizam. Quantas vezes vemos na TV o caipira ser retratado como ingênuo, como retrógrado ou desajustado ?

Atualmente, o sertanejo, personificado nos cantores (que estão mais para pop) adquire outro caráter, justamente em um período que o retorno ao rural (especialmente nos finais de semana) é valorizado, como forma de fugir dos problemas urbanos. Basta ver o crescimento da procura por instâncias hidrominerais, por parques ecológicos, por fazendas, etc.

Dialeticamente, essa carga ideológico-cultural a que temos contato, ao invés de fortalecer nossa cultura pela apreciação de suas especificidades e sentido particular que a nos representa, como elemento de diferenciação e valor histórico, ela enfraquece nossa raízes. Torna mais fácil a assimilação de uma cultura de massa (mais corretamente denominada de indústria cultural), comercial, com interesses, que substitui a cultura que historicamente teria sentido para determinado povo, que historicamente estaria vinculada com as raízes de determinado lugar. (Lugar segundo a abordagem da Geografia Humanista)

Segundo Barbosa Lessaapud Cohen (2000) e Zalla (2008), sociólogos de renome afirmam que a desintegração social, característica de nossa época, é devida a dois fatores: Primeiro: o enfraquecimento das culturas locais. Segundo: o desaparecimento gradativo dos "Grupos Locais", comunidades transmissoras de cultura e de valores e ideais comuns, cabendo aos CTG's o papel cultural e político outrora específico desses grupos.

E foi justamente nesse sentido a intenção de formar os CTG`s – Centros de tradição gaúcha.  O mesmo sentido que João Cezimbra Jacques visava ao fundar, em 22 de maio de 1898, em Porto Alegre, o Grêmio Gaúcho, precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Como ainda cita Lessa, para que um grupo social se estruture como unidade, é necessário que haja coletividade nos modos de agir e de pensar de seus indivíduos.  E isto é conseguido através da "herança social" ou da "cultura".

É pela cultura comum que os membros de uma sociedade possuem a unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um mínimo de harmonia e identidade. A cultura tem como uma de suas finalidades adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural, mas também ao seu lugar na sociedade, pois indica ao indivíduo, desde a infância, as maneiras como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma geração a outra, capacitando sempre os novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade.

Ou seja, a cultura e a tradição desempenham um papel fundamental na resistência ao individualismo, característica da atual sociedade. Também coloca um contraponto ao processo de globalização, no sentido de que mostra o real valor dos elementos locais e específicos de um povo e de um lugar, do passado histórico (que forja uma individualidade), das lutas e resistências, de seus valores, de sua identidade, evitando a superficialidade e o vazio das culturas de massa (que não se confunde com popular, pois não são feitas pelo povo em suas relações espontâneas, mas são comercialmente produzidas e intencionalmente direcionadas para a massa).

 E é neste sentido que o Paranaense se enquadra nas tradições rurais e campeiras, que compartilha em comum com o povo do Rio Grande do Sul muitas de suas tradições e valores. Afinal, nem a cultura sul riograndense nem a paranaense se formaram autonomamente, mas foram socialmente construídas.

E aqui entramos na questão chave. Paranaense pode ser "gaúcho" ? O que é ser "gaúcho" ? Quais os traços específicos da cultura do paranaense ? (podemos falar em uma única cultura dada as especificidades regionais, históricas e culturais do Paraná ?) Quais os pontos em comum com a cultura do Rio Grade do Sul, dita gaúcha ? E a cultura gaúcha é puramente do Rio Grande do Sul (dentro ainda da atual divisão política dos estados) ?

Além dos pontos em comum relacionados com a atividade rural, como a criação de gado nas estâncias, palavras como piquete (pequeno potreiro, ao lado da casa, onde se põe ao pasto os animais utilizados diariamente) e invernadas (grande extensão de campo cercado), guri, entre tantas outras são  tão comum a nós quanto a qualquer gaúcho. Há ainda fatores como o clima, tem-se também a ocupação histórica dos territórios. O sul do Brasil, e parte de outras regiões foi povoado por habitantes originais emcomum – algumas etnias  indígenas, depois o conquistador espanhol e português, e por fim as levas de imigrantes.

 Segundo artigo de  Nilo Bairros de Brum, quase sempre que discutimos sobre a essência de alguma coisa, estamos na verdade discutindo sobre as circunstâncias de aplicação de uma palavra. Teses científicas buscam contemplar a complexidade e variabilidade semântica das palavras. Por isto, ao invés de tentar definir que o gaúcho é isto ou o gaúcho é aquilo, é mais profícuo esclarecer as  circunstâncias históricas, geográficas e culturais em que a palavra é aplicada.
É possível esboçar uma explanação trazendo à tona a histórica atividade dos tropeiros, que ao irem de Viamão (RS) à Sorocaba (SP) pelo caminho do Viamão ( um largo corredor de tropas),  entrando em contato com diversas comunidades e lugares, comerciando e trocando mensagens (recados ou chasque), promoviam uma simbiose cultural. Caminho das tropas que faz parte da História do Paraná.

http://www.parana-online.com.br/colunistas/67/71360/
Podemos chamar à baila questões históricas mais complexas, como a Guerra do Contestado, como a Revolução Federalista, como o Famoso Cerco da Lapa, e tantos outros episódios que promoveram o contato entre os povos da região sul do Brasil, e porque não, da América. 

Até o chimarrão, famoso ícone gaúcho, ao qual se atribui a origem da força e vitalidade dos índios Guaranis, tem seus primeiros registros de uso na Provincia de Guairá. (PR), sendo incorporado aos hábitos do sul rio-grandense, servido com água quente, posteriormente.

Podemos ainda adentrar na etimologiada palavra gaúcho. Apesar de haver algumas divergências, conforme consta no site Pagina do Gaúcho, alguns autores afirmam que o termo gaúcho provem do guarani, se referindo ao "homem que canta triste", aludindo provavelmente à "cantinela arrastada dos minuanos". A maioria dos autores, no entanto,  concorda que seria uma corruptela da palavra Huagchu, de origem quêchua, traduzida por guacho, que significa órfão e designaria os filhos de índia com branco português ou espanhol, cuja paternidade nem sempre fica clara nos registros eclesiásticos.

 Segundo  texto do blog do CTG Sentinelas do Pago, Gaúcho, em outro período histórico, passa a ser também a denominação dada às pessoas ligadas à atividade pecuária em regiões de ocorrência de campos naturais (Pampas) do Vale do Rio da Prata.

As peculiares características do seu modo de vida pastoril teriam forjado uma cultura própria, derivada do amálgama da cultura ibérica e indígena, adaptada ao trabalho executado nas propriedades denominadas estâncias

É assim conhecido no Brasil, enquanto que em países de língua espanhola, como Argentina e Uruguai é chamado de gaucho, demonstrando, que em sua origem, a palavra não mantinha relação com a fronteira política do que hoje denomina-se de Rio Grande do Sul, mas relacionado com um modo de vida.

http://www.conservegrassland.org
Além disso, segundo Brum, a história do cone sul ensina que o primeiro grupo de pessoas a que foi aplicado esse termo era composto de mestiços descendentes de europeus (náufragos, degredados e desertores) e de índias das nações Minuano e Charrua. Esses mestiços eram nômades que percorriam terras que hoje pertencem ao Uruguai, à Argentina e ao Rio grande do Sul.
Não eram súditos de Portugal nem da Espanha; eram homens livres no mais amplo sentido que se possa imaginar. Viviam do abate do gado selvagem, tão livre quanto eles, mas eram tidos como ladrões, pois tanto os portugueses quanto os espanhóis consideravam-se donos das terras e dos gados que nelas viviam.

Precht e Timm, tornam ainda mais complexa a ocupação territorial do que hoje se limita ao estado do Rio Grande Sul, trazendo mais detalhes sobre as influências que contribuíram com a formação do povo e do termo gaúcho, explicando que antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus, no século XVI, o extremo sul do continente americano era habitado por tribos indígenas, sendo os Charruas (e os Minuanos) uma delas. 
http://povodopampa.blogspot.com.br
A presença Charrua passou a incomodar os colonizadores na época de formação dos Estados Nacionais uruguaio e argentino. Quando os grandes fazendeiros começaram a medir os campos, criar gado e tomar conta da região, os índios que vagavam pelos Pampas passaram a representar uma ameaça, pois invadiam as terras privadas. 
Esses homens foram os primeiros gaúchos. E é errado dizer que eram uruguaios, argentinos ou brasileiros porque eles antecederam essas nações. Portanto, antecede mais ainda qualquer noção de Estado ou de fronteiras políticas como hoje se define.


A PALAVRA "GAÚCHO" ANALISADA SOB TRÊS PERSPECTIVAS

Brum ainda defende que a palavra pode ser entendida diante de 3 perspectivas. A meramente geográfica (mais especificamente, tendo como base as atuais fronteiras políticas, esquecendo todo o contexto sociocultural em que o termo foi engendrado, esquecendo que a origem do gaúcho é anterior às definições políticas das atuais fronteiras (dos estados e do país) bem como o fato de que a cultura é dinâmica e não se atém aos limites das fronteiras políticas), portanto, incompleta.  

http://ctgtropeirosdosul.blogspot.com.br
A própria evolução da Pilcha Gaúcha, mostra sua derivação da veste indígena, se confirma no uso dos nomes de algumas peças, como por exemplo: a Guaiaca (derivada da wayaqa, do idioma Aimará, falado por nativos do Chile, Peru, Bolívia e Argentina); Chiripá (comprovando que a história socioeconômica do Rio Grande do Sul, da Argentina e do Uruguai guarda semelhança e que a cultura não se restringe à fronteiras políticas, é possível encontrar o registro do uso do chiripá nessas três regiões. Primeiramente, o modelo primitivo, introduzido no cotidiano do gaúcho pela cultura indígena. Já o segundo tipo é o chamado chiripá farroupilha, tendo em vista que teve amplo uso durante a Revolução Farroupilha.

O Pala gaúcho, é outra peça da indumentária que vêm dos indígenas. Acesse o Portal Gaúcho e descubra mais sobre as indumentárias. Esse tema dá um estudo a parte.

A palavra "gaúcho" pode ser entendida também em uma perspectiva histórica-geográfica-cultural, talvez a mais adequada por considerar as raízes dos povos que erigiram esta cultura, a história que a impulsionou e as transformações pelas quais ela passou e ainda passa, pois a cultura é dinâmica. 

Castro - monumento aos tropeiros
Neste sentido pode-se aplicar esse termo às pessoas que habitam no corredor das tropas. Este corredor cultural é composto por povoações ao longo de uma rede de caminhos por onde subiam as tropas de gado e de mulas xucras em um ciclo que durou dois séculos e que abrange uma larga faixa que passa pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e sul de São Paulo. É a zona dos birivas, uma cultura que tem traços gaúchos e caipiras, como citado anteriormente.

A cultura Biriva, por si só, é rica e densa de significado e importância no surgimentos de povoados, na economia e na política das regiões por onde os tropeiros passavam. Exemplo dessa cultura são as danças, como o fandango, a chula, a dança dos facões, etc.



Por último, na abordagem puramente cultural, que embora seja a mais ampla, é também a mais complexa, pois ela pode ser aplicada às pessoas que não nasceram no Rio Grande  do Sul nem no corredor cultural das tropas, mas que adotaram a cultura gaúcha por algum motivo.

Essa perspectiva  pode ser criticada, de um lado,  por não manter a explicação história que justifica a origem da cultura gaúcha. Ou seja, apresenta semelhanças com as culturas voltadas para a massa – transmitida de forma superficial, sem sentido, sem vínculo com a identidade do indivíduo nem com o passado histórico de determinado lugar.

Por outro lado, nela reside também a maior necessidade de atenção e repousa grande complexidade para uma análise rigorosa e fundamentada, o que não é o objetivo desse esboço. É preciso lembrar que uma grande faixa dos estados de Santa Catarina, Paraná  e São Paulo foram corredor de tropas. As áreas adjacentes sofreram as influências culturais, econômicas, sociais e até políticas dessa atividade. Não se pode desconsiderar as migrações de gaúchos (povos que tem essa cultura enraizada histórica e sociologicamente), e todas as demais formas de contatos entre os povos historicamente existentes. 

EM BUSCA DE UMA CONCLUSÃO

E aqui está uma questão determinante: a liberdade ( especialmente a liberdade consciente), de assumir determinados  valores e práticas culturais. De apreciar determinados aspectos culturais ou do cotidiano de determinados povos.

Não precisa  ter nascido no Rio Grande do Sul para apreciar churrasco, para apreciar chimarrão, para laçar sobre o lombo de um cavalo crioulo, para exercitar como hobby as atividades que outrora eram o ofício dos peões das estâncias, mesmo porque, estas atividades também não fazem parte da maioria dos sul riograndenses residentes na área urbana.

Da mesma forma que muitos torcem para times de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que o Funk (carioca (?)) se espalha por todo o Brasil, da mesma forma que músicas, práticas culturais, alimentares, hábitos de vida de outros países adentram no Brasil, é natural que a tradição gaúcha (no sentido lato do termo) se espalhe para outros Estados, especialmente para aqueles que historicamente guardam traços em comum.

Mas apreciar as tradições gaúchas me faz gaúcho ?

Creio que a discussão seria eterna. Retomando o que diz Nilo Bairros de Brum, estamos na verdade discutindo sobre as circunstâncias de aplicação de uma palavra. E recairíamos novamente no início do texto. Assim, prefiro dizer que os paranaenses que cultivam a tradição campeira, do tropeirismo, do sul do Brasil (e até mesmo os que não cultivam essas tradições), guardam raízes em comum. Raízes que estão plantadas em outros países da América do Sul (Argentina, Uruguai, Paraguai)  e até fora dela (Espanha e Portugal, por exemplo), bem como dos habitantes primitivos destas terras, os diferentes grupos e etnias indígenas, os quais também, não viviam isolados culturalmente.

Prefiro dizer o óbvio: que a cultura não conhece fronteiras políticas, especialmente quando ela se forma em um período histórico anterior a delimitação dessa fronteiras.  Prefiro dizer que, mais importante do que  o designativo gaúcho se aplicar ou não ao Paranaense, é preservar e cultuar as tradições. Conhecer a origem do seu povo, a história de sua terra, para assim entender as lutas, as dificuldades e as conquistas e cada vez mais amar sua terra.



Talvez o que diferencie o nascido no Rio Grande do Sul do nascido no Paraná, seja o fato de que aquele aprecia valorizar seu passado histórico, as lutas que forjaram seu povo, valorizando sua história, sua cultura, seu povo e sua terra.  O Paranaense, por outro lado, apesar de ter um passado glorioso, marcado por resistências e por lutas, não aparenta ter o mesmo ânimo de exaltar o seu chão, de demonstrar sua cultura.


E paranaenses e gaúchos guardam um passado em comum significativo. E mesmo que PR e RS não tivessem nenhuma relação histórica e cultural entre seus povos (o que é incorreto), mesmo  que ambos que as migrações não exercem transferência cultural, mesmo que as culturas não fossem dinâmicas e ficassem inertes em um território arbitrariamente definido, ainda assim seriamos todos brasileiros e guardaríamos uma origem  em comum.




















Até mesmo os mapas da Divisão Política do Brasil, demonstram que ao longo do tempo, as fronteiras dos estados mudaram segundo as necessidades ou arbitrariedades políticas, econômicas, etc. Como então isolar a cultura dentro de uma linha arbitrária ?

E se isso não bastasse, temos ainda a liberdade para apreciar os valores que se enquadram em nosso modo de vida, para escolher nossa forma de viver, para sair dos modismos culturais importados e aprender sobre aquilo que formou nosso povo. O conhecimento de nossas raízes histórico-culturais fará com que deixemos de ver a nossa cultura como estranha, como alheia, mas como parte de nós.

E se tudo isso não bastar, procure conhecer um CTG. E aqui está a importância dos CTGS, segundo o Iratiense professor José Maria Orreda (1992, p.3): 

"O Movimento Tradicionalista Gaúcho estimula a valorização da história e da  cultura, não só do Rio Grande do Sul, mas no Brasil e em todos os estados onde atuam os CTGs (Centros de Tradições Gaúchas). Não só estimula, mas promove sim, a história da conquista da terra, das tradições, das festas, das canções, da literatura, do folclore da etnografia, hábitos e costumes através do congraçamento e alegria de viver em fraternidade. As meninas aprendem a bordar cozinhar, estudar, ler, cuidar da casa, cantar, dançar, recitar. Os meninos, postura física, coragem, laçar, igualmente estudar, ler, ser cavalheiro, depois cavaleiro, ambos o respeito pelo outro, pelo próximo, pela natureza, pelos mais velhos, conquistam civismo e cidadania.”

É impossível uma pessoa amar sua pátria se não é capaz de amar o lugar que pisa. E é impossível amar aquilo que não se conhece.

Portanto paranaense, especialmente aquele que cultua as tradições gaúchas (e percebam como o termo gaúcho é amplo, indo muito além dos rodeios e das danças) na minha singela opinião, pouco importa se você se autodenomina gaúcho, ou se os demais aceitam essa denominação. O que importa é conhecer a história de nossa terra, de nosso povo, como ele foi formado, enaltecendo seus valores, seus sacrifícios e respeitando e preservando esse legado através da tradição.

É entender que a história está muito além das frases decoradas de independência ou morte dos livros didáticos, compreendendo que a verdade independência foi forjada dia a dia na luta das pessoas simples e anônimas que povoaram esse chão.

É entender que somos brasileiros, um povo uno, sem divisões internas, sem revanchismos, apesar de termos em cada canto do país uma cultura riquíssima, bela e complexa que merece todo o esforço para ser preservada e que se completa sinergicamente.

Não poderia encerrar esse texto sem deixar o lema do MTG do Paraná



UM POVO SEM TRADIÇÃO MORRE A CADA GERAÇÃO



Como também um fragmento do livro "Povo Brasileiro" de Darci Ribeiro:

Por
 essas
 vias
 se
 plasmaram
 historicamente
 diversos
 modos
 rústicos
 de


ser
 dos
 brasileiros,
 que
 permitem
 distingui‐los,
 hoje,
 como
 sertanejos
 do


Nordeste,
 caboclos
 da
 Amazônia,
 crioulos
 do
litoral,
 caipiras
 do
 Sudeste
 e


Centro
 do
 país,
 gaúchos
 das
 campanhas
 sulinas,
 além
 de
 ítalo‐brasileiros,


teuto‐brasileiros,
nipo‐brasileiros, etc.


Todos
 eles
 muito
 mais
 marcados 
pelo


que
 têm
 de
 comum
 como
 brasileiros,
 do
 que
 pelas
 diferenças
 devidas
 a


adaptações
 regionais
 ou
 funcionais,
 ou 
de  
miscigenação 
e 
aculturação
 que


emprestam
 fisionomia 
própria a 
uma
 ou
 outra
 parcela
 da 
população.
..

4 comentários:

  1. Muito Bela a explanação.. ao autor , meus parabéns ,caso queira entrar em contato conosco , para divulgação de textos é só procurar no facebook por Jhony Hemidf ou pelo email jhonremidf@hotmai.com , temos uma pagina com mais de 7000 likes onde abordamos assuntos ligados ao Pr e ao Sul do Brasil e teremos prazer em publicar seus conhecimentos ..

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  2. Maravilha,mas é só o pessoal mesmo do Sul do PR,que entende,mas o norte tem forte influência do MS,que com a americanização tomou conta de td,piá,guri,chimarrão que nós tomamos,vem do índio,tche,são palavras de muitas tribos guarani,que habitam o sul,e muitas delas fazem parte do nosso vocabulário...

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  3. Fico feliz e grato pela visita e comentários. O blog está aberto à participação e colaboração de vocês novamente !
    E de fato, a gente percebe a expressão cultural gaúcha, sem a influência do "cowboy" ou country com maior nitidez no sul, onde ainda prevalece os rodeios crioulos e os bailes gaúchos.
    Mas sobre os bailes, gostaria de compartilhar uma opinião: percebo hoje que muitos conjuntos adotaram um estilo mais pop, mais maxixeiro, inclusive abrindo mão da indumentária tradicional. Eu gosto da verdadeira música gaúcha, e admiro muito conjuntos como os Serranos, Monarcas, grupo Rodeio, entre outros, que apesar do modernismo, permanecem gaúchos.

    Como diriam os Mirins:

    "Tem tanta gente enganando nossa gente
    Se infiltrando pelos nossos festivais
    Na alegação de um falso modernismo,
    E com o apioio de pseudo-intelectuais

    Eu quero ouvir som campeiro
    Que seja fácil e gostoso de escutar
    Eu quero ouvir um som campeiro
    Desses que basta estar feliz para cantar..."

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  4. Haroldo , caso tenha alguma pagina no facebook ou outros postagem sobre qualquer tema e queira compartilhar conosco , entre em contato em nossa pagina > https://www.facebook.com/pages/Vip-Vim-do-Interior-do-Paran%C3%A1/346898755391134

    Parabéns novamente pelo post abordando essa tão rica historia.

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