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Ideologia da Natureza

O termo natureza, sob a ótica do senso comum, aparenta ser um conceito de simples entendimento. Entretanto, a forma de compreender a natureza carrega ideologias e interesses. É esta abordagem que Neil Smith desenvolve em seu livro Desenvolvimento Desigual (1988), no capítulo Ideologia da Natureza, expressando como um conceito, por ser um produto social, pode servir e justificar interesses de determinadas classes.

Assim, discutir a relação sociedade-natureza se torna uma atividade complexa, justamente porque é necessário, antes de destacar as relações existentes, definir, mesmo que de forma superficial e restrita, os conceitos que se propõem relacionar. E esses termos carregam uma carga ideológica e com diversidades históricas, isto porque, a compreensão destes termos se dá em uma estrutura socialmente organizada, com interesses, contradições e ideologias que se alteram em contraposições espaço-temporais.

Dessa forma, como apresenta Smith, a concepção de natureza apresenta uma complexidade significativa, principalmente pelo seu dualismo dialético, ou seja, uma natureza universal e outra externa, de forma inter-relacionada e contraditória.

 A natureza exterior é a primitiva, existente fora e antes da sociedade. A natureza é universal quando se considera o comportamento humano e o próprio ser humano como parte integrante da natureza ou dos aspectos ditos externos.

Outra distinção é apresentada é a proposta por Kant, que revela uma natureza interior e outra exterior. A natureza interior compreende as motivações e paixões humanas, enquanto a exterior é o ambiente físico. O interessante, é que estas distinções sustentam ideologias, como a burguesa, por exemplo.

Francis Bacon, conforme ilustra Smith, apresentou uma concepção externa de natureza, justificando seu domínio pelo homem como forma de restabelecer ou manter o equilíbrio. Esta visão justificou a aplicação de técnicas para transformar a natureza segundo os interesses de grupos sociais. Obviamente, este domínio está sujeito aos limites do poder de apropriação e transformação que a sociedade tinha ao seu dispor.
Embora algumas das interpretações da natureza tenham caráter filosófico, elas atendem a interesses concretos. Um exemplo é a visão da natureza como algo selvagem, como um obstáculo a ser superado em prol do progresso. Este outro exemplo de natureza, como algo exterior, é exemplificado por Smith na conquista do território estadunidense. Contraditoriamente, surgiram movimentos que viam a natureza (domestica e menos agressiva) como um local para se retornar, e isso também foi apropriado como uma forma de domínio e de mercantilização. Nestes casos, Smith cita que a “exterioridade é substituída pela universalidade”, havendo uma então uma interpolação de conceitos científicos e poéticos.    

Todos os conceitos de natureza, universais ou externos, tem em si mais do que o interesse ou a necessidade de definir ou delimitar o que é a natureza. Seguindo uma linha histórica, as interpretações foram se alterando, associadas às mudanças sociais, econômicas e até religiosas. Mas em nenhum momento surgiu uma interpretação unânime e definitiva do que é a natureza, que extrapolasse os limites de seu contexto histórico com valor e aceitação plena. Isto fica claro na explicação de Smith, que resume esse contexto,a firmando que “o conceito de natureza é um produto social”.
   
Lobato Corrêa, por sua vez, faz uma abordagem relativa à organização espacial, cujo estudo permite entender a sociedade, objeto de estudo de muitas disciplinas, segundo suas específicas perspectivas. Para Corrêa, a questão da organização espacial relaciona-se com a concepção de natureza em virtude de que o “processo de organização da sociedade deu-se concomitantemente à transformação da natureza”. E estas transformações se justificam porque a sociedade apresenta necessidades que precisam ser supridas. Surge então relações sociais como o intuito de suprir estas carências, ou seja, o trabalho e a produção.

Marx define esse processo como a transformação da natureza primitiva em segunda natureza. Nessa transformação o homem molda a organização espacial ou o espaço geográfico. Um exemplo dessa lógica de estruturação do espaço, integrada com as necessidades humanas e com a apropriação da natureza, são as indústrias.Muitas se localizam em áreas próximas às fontes de matérias-primas, em áreas de clima, hidrografia, relevo, etc. adequados, demonstrando o que comenta Smith em seu livro: “os seres humanos, sua sociedade e seus artefatos continuam a estar sujeitos às leis e aos processos naturais”, embora, hoje, possa se dizer que o potencial de transformação do homem é significativo.

Isto se coaduna com a concepção Marxista, ilustrada pelo filme denominado Ilha das Flores, que permite entender que a diferenciação existente entre o homem e outros animais é a capacidade do primeiro produzir os meios necessários para a sua subsistência, ou seja, a capacidade de transformar a natureza, em vez de pura e simplesmente se adaptar a ela.

A técnica necessária para estas transformações da natureza caracteriza-se por um planejamento, por uma antecipação da percepção das necessidades, configurando-se em uma forma de idealismo. Nessa relação dialética de sociedade e natureza, evidencia-se o conceito de trabalho, como mediador, na concepção de Smith, responsável pela socialização da natureza.

Assim, ao pensarmos na natureza, como elemento anterior à existência humana, mas dependente dela para ter uma definição, a própria noção de propriedade pode ser questionada. Se os objetos de valor são considerados como objeto transformado, ou seja, apropriação da natureza pelo homem, surge a questão: a transformação pelo trabalho dá o direito de posse ou é necessário se apropriar para proceder a transformação dos recursos naturais em valor ?

Se o trabalho gera o direito de posse, fica mais nítida a exploração do trabalho e a alienação do trabalhador dos resultados de sua produção, justificando em parte ideologias contrárias ao modo capitalista de produção. Por outro lado, se a posse é o requisito para a apropriação e transformação da natureza em valor, implicaria em discutir de quem seria, a priori, a propriedade da natureza, entendida nesse caso como exterior ao homem.

Enfim, a discussão de algo aparentemente entendido pelo senso comum, como o conceito de natureza, demonstra que por trás de conceitos cristalizados repousam ideologias, interesses, visões de mundo, que levam à interpretações e a aceitação passiva de idéias não necessariamente verdadeiras, ou pelo menos, isentas de neutralidade.

Isso talvez se deva ao fato de que as interpretações e compreensões de conceitos partam de premissas moldadas socialmente, e a sociedade, complexa e multifacetada, expressa os valores das classes, do tempo histórico e do modo de produção no qual suas relações se formam e se reproduzem.














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