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Demografia e as políticas públicas: População de Irati se aproxima dos 59 mil habitantes

Mais do que apontar o crescimento populacional, torna-se importante, especialmente pelos responsáveis pela formulação das políticas públicas, verificar as causas desse crescimento, os fatores que o impulsionaram e principalmente, os reflexos que ele gerará nas condições de vida da população, sob o prisma dos aspectos econômicos, sociais, etc. Dessa forma, torna-se interessante discutir a demografia local sob o enfoque das mudanças que ocorrem em nível regional e nacional, na medida do possível, relacionando-as.

Segundo consta na Folha de São Paulo, a projeção oficial da população (IBGE), divulgada em agosto de 2013, estimou 201.032.714 pessoas vivendo no país. Pela primeira vez, a marca de 200 milhões foi superada - a cifra era de 199.242.462 em 2012. 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

Estima-se que no mundo (trata-se de uma média, portanto passível de vieses e críticas), a taxa de crescimento populacional seja da ordem de 1,2% ao ano. Esse crescimento pode ser interpretado sob a luz de duas facetas: considerando o crescimento vegetativo e considerando também a taxa de migrações.



Com relação ao crescimento vegetativo, trata-se da diferença positiva entre o número de nascimentos e o número de mortes em um dado local e período. Diferente de alguns anos atrás, a população brasileira experimenta taxas de mortalidade menor, graças a maior expectativa de vida e aos avanços da medicina, da melhoria dos hábitos de vida, de algumas políticas públicas, etc.



Com pode ser visualizado na imagem acima, a população brasileira tem um significativo aumento na projeção da expectativa da vida.  Essa ampliação é equilibrada atualmente pela menor taxa de natalidade, decorrente de políticas públicas, do planejamento familiar, da popularização de métodos contra-conceptivos, de mudanças econômicas e culturais, com a entrada da mulher no mercado de trabalho, o que exige maior tempo dedicado à qualificação, adiando uniões conjugais, sem mencionar diversos outros fatores sociais, culturais, econômicos e religiosos. Esse contexto tende a estabilizar ou reduzir o crescimento populacional nos próximos anos.



Com relação às causas das migrações, estas se mostram
bem mais complexas. Uma série de fatores inter-relacionados podem disparar a necessidade ou intenção do indivíduo migrar. A título de exemplo, foi elaborada uma pesquisa acadêmica com os concluintes do ensino médio no Distrito de Guamirim, município de Irati - PR, e mesmo considerando um perfil homogêneo de alunos e uma escala geográfica pequena (nível local), constatou-se diversos fatores inter-relacionados que influenciam na migração.


Centro de Irati
Entre estes fatores, as políticas públicas tem grande peso, na medida em que conseguem suprir ou não as pessoas com os serviços e estruturas que estas demandam para atender suas necessidades, inclusive, relativas a sua formação e ao acesso ao mercado de trabalho. Outros fatores como proximidade dos centros urbanos, estrutura fundiária (pequenas ou grandes propriedades), perspectivas pessoais, enfim,  despontam uma vasta gama de fatores sociais, culturais, econômicos, individuais, que de forma inter-relacionada, agem como agentes impulsionadores da migração ou como agentes responsáveis pela fixação das pessoas em determinado lugar.



No que se refere aos dados demográficos, é importante analisar além das causas que geraram um crescimento populacional acima ou abaixo da média (apenas um parâmetro, já que uma taxa de crescimento para ser considerada elevada ou baixa depende da conjunção de uma série de fatores) em determinado lugar, as conseqüências desse incremento.

O Paraná, por exemplo, segundo dados do site Paraná On Line, apresentou um crescimento de 9,16% na última década contemplada pelo Censo de 2010. Um crescimento relativamente menor que a média Nacional que girou em torno de 12,32% neste mesmo período. Irati, por sua vez, apresentou um crescimento menor nesta comparação, tendo um crescimento populacional em torno de 7% nos dez anos (2000 a 2010), ou seja, uma taxa anual de 0,9% no Paraná, 1,2% no Brasil e 0,7% em Irati.


Uma matéria no site da Rádio Najuá, publicada em setembro de 2013, destaca que a população nos dez municípios que fazem parte da Região Centro-Sul  é de 220.108 habitantes. A tabela abaixo apresenta  a variação percentual aproximada da população de alguns municípios (entre eles
, os da Região Centro-Sul) entre os anos de 2010 e 2013, elencando os municípios em ordem decrescente de crescimento populacional. Destacando que o aumento percentual se refere ao triênio 2010 / 2013, não se tratando da taxa média anual de crescimento. 


Adaptado de Rádio Najua


É importante frisar que a chamada "Região Centro-Sul" é um critério de regionalização que agrega os municípios membros das associações de municípios, no caso da cidade de Irati, o município está vinculado à Amcespar - Associação dos Municípios do Centro-Sul do Estado do Paraná.

IPARDES,  por sua vez, apresenta uma regionalização diferente da abordada pelo texto. Segundo a classificação do IPARDES, Irati se localiza na Mesorregião Sudeste. Aduas classificações estão ilustradas nas figuras abaixo. 

Esta distinção é oportuna, pois ela pode refletir nas análises de questões socioeconômicas, emprego, renda, desenvolvimento, etc, sendo necessário distinguir se os dados se referem a esta ou aquela classificação, pois cada uma delas agrega um conjunto de municípios com número de habitantes diferentes, com taxa de urbanização distinta, com estrutura econômica, IDH e outros indicadores diversos.

Regionalização da região Centro Sul do Paraná
utilizada pela AMCESPAR, entre outros autores


Regionalização adotada pelo IPARDES



Com relação aos dados específicos de Irati, o IBGE  (2010) e o IPARDES (2011),  expressam que o  território  municipal  iratiense apresenta  uma  densidade  demográfica  de  53,26 hab/km2, com uma população de 56.207 habitantes.  Destes, 44.932 residem na área urbana e 11.275 nas áreas rurais, expressando uma taxa de urbanização de aproximadamente 79,94%, com um crescimento próximo de 5% na década considerada.



Para fins de planejamento, é oportuno determinar se o crescimento (seja ele significativo ou praticamente estável) decorre da migração ou do crescimento vegetativo. No primeiro caso, a população adicional pode demandar opções de renda, de qualificação, acesso à saúde, etc. No segundo caso, considerando o aumento decorrente do maior número de nascimentos, a ênfase recai em creches, escolas, na saúde, etc. Entretanto, é preciso reforçar que as taxas de natalidade têm caído na maioria dos países ao passo que a expectativa de vida tem aumentado, o que gera a necessidade de políticas para atender as necessidades da população idosa.

É interessante destacar que a análise dos dados demográficos referentes a Irati devem considerar especificidades, como o fato de contar com uma Universidade pública (Unicentro), o que é um fator de atração populacional. Também tem instalado em seu território empresas cuja característica é atrair funcionários de outras cidades, muitos dos quais optam por residir no município iratiense, entre outros fatores.

Por outro lado, não apresenta uma estrutura industrial relativamente superior às cidades vizinhas, que seja capaz de absorver o excedente de mão de obra, ficando, quando se trata de grandes empregadores, dependente de poucas empresas. Entretanto, municípios menos populosos e talvez menos industrializados (já que Irati se constitui em uma cidade polo), como Teixeira Soares, Guamiranga, Ivaí e Rio Azul, percentualmente, tiveram um incremento populacional maior no triênio ilustrado na tabela que apresenta o crescimento populacional dos municípios

Uma análise comparativa, de cunho regional, poderia, por exemplo, determinar as causas desse incremento, detectar vocações econômicas, se há atrativos populacionais que incentivem a imigração, ou se o crescimento é natural, ou seja, se nestas cidades a taxa de natalidade é maior. Uma taxa de natalidade maior, por sua vez, pode indicar uma ausência maior da mulher no mercado de trabalho, uma taxa urbanização menor, tendo em vista que grande parte do deslocamento de pessoas do campo para a área urbana está relacionada com a busca por ocupação. Enfim, N variáveis poderiam ser conjecturadas e somente através de uma pesquisa específica ter suas causas determinadas.

Obviamente, é preciso enfatizar que crescimento populacional em uma análise geográfica objetiva não tem um qualificativo positivo ou negativo, mas circunstancial. Ao mesmo tempo em que pode indicar oportunidades oferecidas por uma cidade, pode ser o reflexo de dificuldades nas cidades ou regiões vizinhas. Se o incremento populacional não for absorvido (pelas políticas públicas, pelo mercado de trabalho, etc.), pode-se favorecer a marginalização de indivíduos, etc. Ou seja, não se  deve olhar para aspectos econômicos de forma isolada dos aspectos sociais, culturais, políticos, etc. Não se pode olhar para o local sem fazer uma análise atrelada à escala regional.

É relevante evidenciar ainda que não somente a indústria atrai pessoas, mas o comércio e os serviços, embora estes últimos (que agem na circulação) sejam dependentes da geração de renda, inclusive da agricultura, forte na região e que poderia agregar maior valor ao que produz. (Isso falando apenas de aspectos econômicos, desconsiderando a busca por qualidade de vida ou outros fatores determinantes)

Comentando alguns aspectos econômicos do Município de Irati, segundo dados do IPARDES (2007) constantes no site da Prefeitura Municipal, a indústria representa 34% (provavelmente do Produto interno bruto, pois a informação não está explícita no gráfico), contra 41% dos serviços (possivelmente em conjunto com o comércio, o qual não é mencionado pela referida fonte) e 25% da agropecuária.

Entretanto, se forem levantados dados sobre o percentual de pessoas empregadas ou relativos ao número de estabelecimentos, provavelmente o comércio e o serviço terão uma participação percentual muito maior.

Essa grande participação do setor terciário é quase uma regra na maioria das economias desenvolvidas.  No Brasil, segundo o site governamental, o setor terciário representa 70% do PIB e 75% dos empregos formais, segundo dados do IBGE. Entretanto, diferente dos países desenvolvidos, o Brasil pulou linhas na página que trata da industrialização, tendo esse processo de desenvolvimento ainda incompleto.

Dessa forma, em cidades como Irati, quem sustenta o comércio ? 

Uma análise sem a pretensão de ser científica ou rigorosa, mostra que a renda circulante vem da agricultura ou de poucas indústrias (clique aqui e confirma as principais), além da prefeitura (entre os principais empregadores), o que é regra também nos pequenos municípios da região (Rebouças, Rio Azul, Mallet e até mesmo Imbituva com seu APL - arranjo produtivo local.

Outra questão que merece destaque é verificar se nas cidades que apresentam um crescimento populacional significante, os serviços públicos essenciais estão preparados para atender a esta ampliação populacional, pois as pessoas irão requerer, além do trabalho, serviços de saúde, de creches e escolas, habitação, saneamento básico, segurança, cultura, lazer, entre outras demandas sociais. Isso sem mencionar em equipamentos urbanos que garantem a mobilidade e a acessibilidade, requerendo atenção inclusive no trânsito e no acesso aos prédios públicos e comerciais.

Foto R. Najuá - Conjunto Joaquim Zarpellon
A questão da habitação é outro ponto nevrálgico, especialmente no município de Irati, o qual talvez apresente maior distinção com relação aos municípios vizinhos.

Quanto maior a densidade dos equipamentos de uso coletivo em determinado lugar, maior a atração que esse espaço exerce e maior  a valorização do lugar. Dessa forma, a tendência é que se valorize ainda mais os lotes urbanos (especialmente determinado bairros), dificultando a aquisição de moradias por grande parte da população, o que consequentemente amplia o valor dos alugueis e contribui com a segregação espacial

Novamente, cabe as políticas públicas contribuírem para atender às necessidades de habitação, as quais tem aumentado em taxas proporcionalmente superiores às vagas ofertadas nos programas habitacionais.

Lembrando ainda que muitos bairros podem apresentar condições ruins de acessibilidade para a área central ou não dispor dos equipamentos públicos e da infraestrutura que os demais habitantes podem usufruir.

O professor Doutor Roberto França Junior, em interessante artigo sobre a valorização mobiliária em Irati, ressalta ainda que há a questão dos vazios urbanos, muitos nas áreas centrais, que merecem uma discussão a parte, como também analisa a grande valorização fundiária verificada no município nos últimos anos.



Mais do que apontar o crescimento populacional, torna-se importante, especialmente pelos responsáveis pela formulação das políticas públicas, verificar as causas desse crescimento populacional, os fatores que o impulsionaram e principalmente, os reflexos que ele gerará nas condições de vida da população, sob os aspectos econômicos, sociais, etc.  Qual o perfil dessa população, qual a faixa etária, quais as necessidades de capacitação, de assistência ?


Fonte: http://www.cidades.ibge.gov.br/
Mesmo porque, há também a preocupação ambiental. Até que ponto haverá recursos para o incremento populacional, tanto local quanto globalmente, até que ponto o meio ambiente resistirá aos impactos das atividades humanas. Enfim, não faltam questões e desdobramentos para serem analisados a respeito dessa questão, e não são poucos também os reflexos práticos na vida de todos.

Leia também o texto relacionado com demografia e políticas públicas: 
Migração Intraterritório: Uma análise dos fatores influentes no Distrito de Guamirim - Irati.

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