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Paisagem Geográfica

PAISAGEM GEOGRÁFICA

            Comumente, as pessoas denominam de paisagem o que elas observam como algo bonito, agradável, bucólico, etc. Por exemplo, uma bela cachoeira em uma mata, uma linda praia. Entretanto, para a Geografia, o conceito de paisagem vai além de um belo panorama natural. Para Milton Santos (1998) apud Aoki (2006)  “tudo aquilo que nós vemos, o que a nossa visão alcança, é a paisagem (...) Não apenas formada de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc.”
            A própria descrição de Santos, no entanto, nos permite ir além dos elementos visíveis. Boligian (2004) diz que a paisagem é tudo o que está presente em determinada extensão do espaço terrestre e que pode ser abarcado pelos nossos sentidos (não somente a visão), mas abrangendo também elementos não visíveis, como ruídos, odores, sensação térmica, etc. compreendendo não somente elementos estáticos, mas a dinâmica que dá vida e especificidade a determinado lugar.
Fonte: http://radionajua.com.br
            Dessa forma, as paisagens variam de um lugar para outro, pois elas são formadas de elementos diferentes. A paisagem urbana, por exemplo, terá diferenças em relação à paisagem rural. E estas diferenças decorrem de fatores naturais, mas também da relação entre a sociedade e a natureza.  Portanto, a paisagem revela como dada sociedade desenvolve suas atividades, como as pessoas se relacionam entre si e com a natureza. Ou seja, expressa a dinâmica e a interação tanto entre os elementos humanos e sociais com os elementos naturais e as interações destes elementos entre si.
            Além das diferenças concretas e objetivas existentes entre as diferentes paisagens, e da variedade de elementos que as compõem, cuja combinação colabora para que cada paisagem seja única, existe também a
percepção subjetiva do observador. Se diversas pessoas observarem a mesma paisagem,  provavelmente cada uma delas irá focar aspectos diferentes. Algumas falaram a vegetação, outras sobre o relevo, sobre as rochas, outras se atentarão ao fluxo de veículos, sobre as cores, sobre como o sol ilumina o lugar, etc, pois cada pessoa tende a perceber primeiramente os elementos com os quais mais se identifica.

            Resumidamente, os elementos da paisagem podem ser divididos didaticamente em dois grupos. O primeiro deles se refere aos elementos naturais ou físicos, que conjuntamente e em interação formam a paisagem natural. No segundo grupo estão classificados os elementos criados ou modificados pela ação ou intervenção humana na natureza, por isso denominados de elementos humanos ou culturais.
Como toda classificação deixa certa margem para o debate, o ser humano, por exemplo, pode ser considerado um destes elementos culturais, pois embora ele faça parte da natureza (sendo também um elemento natural), ele também apresenta suas especificidades culturais, suas técnicas e seu trabalho, enquanto ação social, sendo um agente que realiza transformações na natureza. A imagem abaixo ilustra a transformação na paisagem decorrente da atividade econômica de mineração.

Fonte: http://henriquembranco.blogspot.com.br/2013/
Dessa forma, sendo o homem parte do ecossistema, agente social de transformação da natureza, espera-se que sua ação seja consciente quanto aos efeitos que ela poderá gerar, o que impõe à sociedade repensar inclusive sua organização produtiva e econômica, a qual deve ser uma construção social para atender à sociedade e não ser vislumbrada como um fim em si mesma ou como um modelo a serviço de poucos.

A ação humana sobre a natureza em uma intensidade cada vez maior faz com que atualmente praticamente sejam inexistentes paisagens puramente naturais, ou seja, livres da intervenção ou influência humana, embora em alguns casos os efeitos sejam sutis ou indiretos. Por exemplo: a poluição do ar decorrente da atividade industrial e automobilística de um grande centro não fica restrita aos limites do espaço urbano, mas pode afetar a biologia marinha, ao poluir rios que deságuam no mar; ao mudar as propriedades da chuvas (chuva ácida), pode prejudicar a flora e a fauna em outros ambientes. O desmatamento para dar espaço a plantações ou pastagens pode alterar o regime de chuvas, causando estiagens ou enchentes em diversos locais da bacia hidrográfica, etc. Dessa forma, podemos falar em paisagens predominantemente naturais, como as regiões polares, fundo dos oceanos, áreas desérticas ou florestas preservadas.

Além disso, é importante ressaltar que a ação humana não é individual, pois o ser humano vive em sociedade e as modificações realizadas na natureza variam conforme a época e o lugar, pois histórica e espacialmente, há diferenças entre as sociedades e seus modos de vida, suas técnicas, suas tecnologias, e especialmente, em decorrência de seu modo de produção e de sua organização econômica.


No passado os grupamentos humanos retiravam da natureza apenas o necessário para a subsistência, como alimentos, madeira para construção de casas e não contavam com tecnologias que permitiam a exploração em larga escala, as modificações na natureza eram relativamente menores. Por outro lado, atualmente, dentro de uma concepção capitalista de consumo contínuo para garantir a contínua expansão (e sobrevivência) do sistema, as pessoas apresentam maiores e mais diversificadas necessidades de consumo (geralmente estimuladas pela ideologia consumista, pela propaganda, etc.). As indústrias para atender a demanda, desenvolvem tecnologias que permitem a exploração massiva da natureza, promovendo alterações cujas conseqüências são imprevisíveis e afetam a vida humana. A imagem acima ilustra um exemplo da evolução ocorrida nos implementos agrícolas, sem mencionar outras tecnologias, como sementes, defensivos, e sem considerar ainda o impacto destas mudanças nas relações sociais de produção.

Fonte: g1.globo.com
Destaca-se também que da mesma forma que a ação humana ou social, os fenômenos naturais também provocam alterações na paisagem. A erosão (pluvial, marinha, eólica, etc), os terremotos, entre outros agentes modificadores do relevo, provocam alterações na paisagem. Entretanto, se um terremoto ou vulcanismo pode ser entendido como um fenômeno natural fora do controle humano, outros fenômenos, como a chuva que causa desmoronamentos e alagamentos, em alguns casos, pode ser influenciada pela ação humana, a qual destrói áreas verdes, recorta encostas de morro, impermeabiliza o solo, especialmente nas áreas urbanas, etc.

Retomando, as formas de relevo (planaltos, planícies, depressões, serras, etc.), a hidrografia (rios, mares, lagos, etc.), e a vegetação são alguns exemplos de paisagens naturais. Casas, prédios, rodovias, plantações, represas, etc. são exemplos de paisagem cultural .

Fonte: o autor

Ambas formam o que se chama de paisagens geográficas. Para Moreira (2004), denomina-se de paisagem geográfica o conjunto de elementos naturais, modificados com maior ou menor intensidade pelo ser humano, e de elementos culturais.

Os diversos elementos de uma paisagem se inter-relacionam. Da mesma forma que
o ser humano atua sobre os elementos da paisagem, estes também afetam o modo de vida as pessoas. Por exemplo: da mesma forma que o habitante de um país temperado ou polar tem determinados hábitos de vida, o habitante de países tropicais mantém outras interações com os elementos de sua paisagem. O indígena, na floresta, mantém uma relação diferente daquela que o habitante urbano tem com os elementos a seu entorno. Entretanto, as nuances geralmente não são tão claras, especialmente nas áreas urbanas. Mas a observação atenta da paisagem pode revelar muitos aspectos da cultura, dos hábitos de vida e até dos regramentos de uma sociedade ou população. A Lei de zoneamento urbano, por exemplo, que estabelece onde serão instaladas as indústrias e onde estão as áreas residenciais é um exemplo. A largura das ruas, as placas de trânsito são outros exemplos de regras perceptíveis.

       
PAISAGENS TRANSFORMADAS

            Como se sabe, todas as paisagens sofrem modificações. As paisagens naturais são modificadas pela ação dos fenômenos naturais (cuja intensidade ou efeitos podem variar segundo a influência da ação antrópica) e pela ação direta do homem, quando este, por exemplo, retira a vegetação de uma área, faz modificações topográficas no relevo ocupando o lugar para o plantio agrícola ou para a execução de um loteamento. Da mesma forma, as paisagens culturais também são constantemente modificadas, destruídas, reconstruídas, etc. Isso, no entanto, não significa que os elementos anteriores não deixaram suas marcas no espaço geográfico.

      Entre as principais transformações na paisagem geográfica estão a destruição da vegetação, a exploração do solo, a utilização dos rios e oceanos, etc.

http://info.abril.com.br/
Para Aoki (2006), a destruição da vegetação: sendo uma das mais críticas alterações provocadas pela ação antrópica. O desmatamento leva a perda de nutrientes dos solos, força a migração dos animais para outras áreas em busca de alimentos, comprometendo a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, reduz a umidade e altera o regime de chuvas, alterando o clima, além de outras conseqüências, como a erosão, o assoreamento de rios, etc.
No continente europeu, por exemplo, praticamente toda vegetação original foi destruída. No Brasil, historicamente a Mata Atlântica é a formação vegetal que mais sofreu a ação humana e a Floresta Amazônica e os Cerrados também tem enfrentado os efeitos da exploração nas últimas décadas, especialmente para uso de terras como pastagens, mineração e na plantação de grãos para a exportação.

A exploração do solo, por sua vez, se relaciona com diversas atividades, como a agricultura, a mineração, os reflorestamentos comerciais, os loteamentos, etc. Quanto aos impactos do cultivo agrícola, que substitui a vegetação original inclusive por variedades transgênicas de vegetais, que alteram o equilíbrio biológico do ecossistema, se intensificam quando o solo é utilizado sem os cuidados necessários para garantir sua fertilidade, como o uso exagerado de agrotóxicos (ideologicamente denominados de defensivos agrícolas), que são levados pela ação das chuvas para o leito dos rios, contaminando o ecossistema, inclusive a água e os peixes que são consumidos pelos seres humanos; a inserção de culturas estranhas à flora local, interferindo nas relações entre flora e fauna; os efeitos da erosão, que promove a lixiviação dos nutrientes do solo, assoreia rios, etc.
Embora a agricultura seja fundamental para a existência, o que se espera é atenção quanto às práticas adotadas. Diferente da agricultura comercial que visa o lucro, exportando produtos inclusive para consumo animal, independente da segurança alimentar, pequenas propriedades e experiências associativistas tem demonstrado que é possível produzir alimentos de qualidade, mais saudáveis e sem gerar tantos impactos no meio ambiente, como a agroecologia, por exemplo. Demonstram a preservação ambiental não está desvinculada das questões econômicas e das questões políticas. Portanto, todos estes setores e toda a sociedade tem responsabilidade no que se refere a preservação ambiental.

Outro exemplo de alteração de paisagens é a utilização dos rios e mares para as atividades humanas. Segundo Aoki (2006), o represamento de rios para gerar energia elétrica ou irrigar plantações, e a mudanças dos cursos de água para favorecer a ocupação humana são exemplos destas transformações. Mesmo estas obras trazendo benefícios para a população, como por exemplo, a transposição do rio São Francisco, no Nordeste, não estão livres dos impactos ambientais. Além disso, é sempre necessário refletir e principalmente verificar quem são os principais beneficiários das mudanças realizadas na paisagem, especialmente quando realizadas pelo poder público, e verificar quais serão os efeitos e quem são os prejudicados por estas mudanças.
www.agencia.ac.gov.br

As paisagens também são modificadas quando esgotos e rejeitos industriais são lançados nos mares ou rios, modificando a paisagem, como por exemplo, a poluição dos rios, quando se constroem pontes, portos, etc.

Se a própria natureza provoca alterações na paisagem (deslizamento de encostas, alagamentos, processos erosivos), de forma autônoma, fica evidente que a dinâmica da ação humana (social)  também modifica as paisagens, seja acelerando ou induzindo esses processos naturais (efeito estufa, recorte de encostas, desmatamentos, que por sua vez trarão outros efeitos na paisagem), ela também modifica a paisagem  por meio do trabalho e das técnicas. Dessa forma, os lugares evidenciam “marcas” que destacam os aspectos culturais, técnicas de trabalho, relações sociais, etc. utilizadas em cada momento histórico
É por isso que ao observarmos uma paisagem, podemos visualizar ou perceber elementos naturais e culturais criados ou modificados em épocas diferentes, podemos coexistir elementos novos e antigos.

O aqueduto, conhecido como Arcos da Lapa, foi construído em 1723. Na paisagem, convivem elementos antigos e modernos, os quais são marcas que ajudam a contar a história do lugar.


PAISAGENS PRESERVADAS

            A preservação das paisagens é importante por diversos fatores e não se resume apenas no que tange à preservação ambiental. A paisagem cultural, em alguns casos, tem importância histórica, cultural, artística, estética, etc. que merece ser mantida. As antigas igrejas de arquitetura barroca do período colonial são um exemplo. Outros exemplos são as ruínas das reduções jesuíticas, que fornecem informações sobre a história da colonização do território brasileiro e da relação que os europeus mantiveram com os povos nativos, bem como o aspecto religioso que influenciou a cultura destes povos. Enfim, na paisagem urbana podemos ver prédios, praças, casas, etc. que serviram no passado a determinados fins e que revelam parte da história e da cultura de um povo.

Ruínas da Redução Missioneira de  São Miguel http://teobaldobranco.blogspot.com.br/

            Que tal fotografar algumas paisagens culturais urbanas e descrever o que elas representam histórica, cultural e socialmente, sobre o modo de vida, sobre os valores do povo que as construiu ?

            Mas além da necessidade de se preservar as paisagens culturais, a paisagem natural também merece atenção. Para Aoki (2006), a preservação de algumas paisagens é justificada por diversos motivos, entre eles: por conterem exemplares da fauna e da flora, alguns com risco de extinção; por serem fontes de pesquisa; pela possibilidade de uso medicinal; pela beleza e pela possibilidade de turismo: pela existência de comunidades tradicionais, com seu modo específico de vida e de cultura, com direito de ser preservado, como por exemplo, povos faxinalenses, quilombolas, caiçaras, etc.

         Para que muitas destas paisagens sejam preservadas, cabe ao Estado a elaboração de leis de proteção ambiental, disponibilizar a fiscalização e os recursos para a praticidade das determinações estabelecidas. Algumas paisagens, pela sua importância ou beleza, recebem inclusive a atenção internacional, como a Mata Atlântica no Brasil, considerada reserva mundial da biosfera pela ONU – Organização das Nações Unidades.

            Algumas áreas são definidas como unidades de conservação. Elas podem dividas em unidades de uso sustentável, onde tenta-se compatibilizar a conservação ambiental com o uso sustentável dos recursos existentes. São exemplos as florestas nacionais, as reservas particulares do patrimônio natural, as reservas extrativistas, etc. E podem ser divididas também em unidades de proteção integral representadas por estações ecológicas, parques nacionais, reservas ecológicas, sem a possibilidade de uso dos recursos.
            Fica-se então evidente que existe uma distinção entre preservação (quando o recurso natural não é utilizado) e conservação (quando os recursos naturais são utilizados de forma sustentável e consciente).

            É interessante destacar a visão que o indígena tem sobre a terra e sobre a relação entre a sociedade e a natureza. Um dica de leitura é o texto “coisas de índio”, de Daniel Maduruku (2000). O texto ressalta que para o índio a terra é sagrada. É a garantia de seu sustento e das demais atividades humanas e sociais que ele realiza. Sua cultura, quase sempre mítica, faz da terra o lugar onde houve a ação dos heróis criadores do mundo, o lugar onde repousam seus antepassados e de onde provem a vida. Por isso, entendem a terra como viva (o que a própria ciência confirma a seu modo), procuram conhecer a fauna e a flora, suas propriedades, seus limites e suas respostas às ações humanas. Enfim, tratam a terra com respeito, amor e temor, pois sabem que todas as ações realizadas hoje afetarão, mais cedo ou mais tarde, a todos.

            Infelizmente, a sociedade, sob a ótica e a ideologia capitalista, vê a natureza como um recurso a ser explorado, não de forma sustentável, mas até a exaustão. E não para atender as necessidades sociais, promover o bem estar, acabar com a fome, mas para garantir o lucro de uma minoria, embora o preço seja pago por todos. Afinal, é justamente a parcela da sociedade que não se beneficia dessa exploração que sofre com as cheias, alagamentos, a falta de água, os deslizamentos e toda sorte de resposta da natureza.
       
           Conhecendo o conceito e um pouco sobre o que é a paisagem geográfica, fica mais fácil de entender posteriormente o conceito de espaço geográfico, o que para Moreira (2004), nada mais é do que a paisagem em processo de transformação, incluindo os motivos e as formas de sua mudança. Espaço este produzido ao longo da história pelo trabalho humano (trabalho social, pois normalmente não se dá de forma isolada ou individual).

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