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O passado já se foi, mas ficou gravado

 O dicionário nos sugere que presente é tudo aquilo que se oferece, de forma gratuita, a alguém, com o intuito de fazê-lo feliz. Pode ser algo surpreendente ou previamente escolhido. Assim é nossa vida: um presente. E o presente, enquanto sucessão de tempo, é o que temos. Dizem alguns: o passado já se foi, o futuro, a Deus pertence. Mas o futuro será moldado pelo nosso presente, e o nosso presente, é moldado pelo nosso passado.

O dicionário ainda pode contribuir com outro conceito: o devir. Este é um termo filosófico que se refere às mudanças pelas quais passamos; é o se tornar. Nada é constante, exceto a mudança. E é dentro destas premissas que começo a esboçar algumas memórias que tratam do passado, do que nos tornamos, do que temos hoje e do que sentimos saudades.

É estranho, pois embora o hoje seja o presente, parece que o passado sempre nos fez mais feliz. Até mesmo as
dificuldades, com o passar do tempo, se tornam pequenas, se tornam alicerces que nos moldam e que agora conseguimos entender. Talvez por isso, não raro, esboçamos a frase: que saudade daquela época !

E falando em saudade, lembro-me que nos idos de 1980, assistirmos a um programa de TV, em preto e branco, era momento de requinte. Ficávamos com aquela vontade de assistir os desenhos animados, de nos sentirmos e sermos os heróis que se moviam na tela. Mas nem sempre o tubo de imagem ajudava. Televisão estragada, quando se tinha uma, era artigo comum. A sensação de desejo aumentava quando começaram a surgir no lar daqueles mais abastados as TVs coloridas. Nestas, a pantera cor-de-rosa era realmente cor-de-rosa (e não cinza), e podíamos ver a cor da sunga do Superman...

Por outro lado, a falta de TV nos impulsionava a visitar vizinhos e amigos para assistir determinados programas, os quais perdiam a importância diante da conversa, das brincadeiras, dos causos contados pelos adultos que nos atraia a atenção enquanto circulava o chimarrão.

Naquela época, a densidade demográfica era menor. Especialmente nos bairros, muitos terrenos não tinham casas construídas, mas nem por isso deixavam de ser ocupados por campinhos. Onde houvesse um terreno, plano ou não, limpo ou não, havia espaço para um campo de futebol. Cortávamos as traves na mata, íamos às serrarias buscar serragem para o conforto dos goleiros, fazíamos a capina do terreno, improvisávamos à enxada, conforme a topografia dos barrancos, uma arquibancada e tínhamos diversos estádios próximos da residência. Fazia parte do uniforme o Ky-chute, o tênis Bamba ou pé-descalço. Ser dono da bola garantia aos menos habilidosos um lugar no time, embora, na falta deste artigo oficial, uma bola de pacote servisse.

Fazíamos por diversas horas diárias atividades físicas. Vivíamos espontaneamente nossa dinâmica de grupo. Exercíamos o papel de líderes, de incentivadores, de apaziguadores. Fazíamos amizades, inimizades (que eram passageiras), descobríamos e valorizávamos talentos (os bons de bola sempre eram escolhidos primeiro); os escolhidos por último aprendiam a conviver com a frustração, a buscar outros dons.

Alguns tinham o dom da palavra. Lembro-me que nas noites de inverno, nos reuníamos em frente a casa de algum amigo e fazíamos um fogo em volta do qual sentávamos e contávamos piadas e contos de terror. Lobisomens, boitatás e outros seres da quaresma povoavam a nossa imaginação. Época, inclusive, que ainda havia as tais recomendações das almas.

Quando chegava o verão (às vezes sequer aguardávamos tanto), a preocupação não era com óculos de sol ou protetor solar, muito menos com doenças dermatológicas. De preocupação quase morriam nossos pais, mas descíamos em algum trecho de rio, o qual tinha profundidade, em alguns pontos, suficiente para cobrir o joelho de uma criança. Buscávamos pedras, galhos, madeiras e fazíamos uma represa. 

Limpávamos os tocos, pedras e eventuais latinhas de minhoca deixadas por algum pescador e tínhamos uma piscina ao dispor. O barranco enlameado era nosso tobogã. E pasmem, ninguém ficou doente, ninguém morreu. Doenças graves que tive na infância foram gripes e dores de barriga. Mas aprendi a nadar, me diverti muito, me superei, vivi ! Hoje, com o avanço da ocupação humana nas margens dos rios (embora o saneamento básico seja muito mais acessível, por um lado, a poluição e a produção de lixo, por outro, é sem precedentes), não aconselho nenhuma criança a deixar seu Playstation ou celular de lado para se aventurar nas águas de algum córrego urbano, tampouco comer algum peixe vindo destes lugares.

Comentei a pouco sobre a latinha de minhoca dos pescadores. Tínhamos tempo de sentar em um barranco de rio e esperar um lambari beliscar o anzol. Mas aos olhos de hoje, fazíamos atividades muito mais condenáveis ecologicamente. Quantos não caçavam passarinhos ? Quantos não iam aos rios retirar argila para fazer pelotes? (pelotes secados naturalmente ao sol eram de melhor qualidade que aqueles secos ao forno) Quantos não tinham o dote artesanal de fazer arapucas e lacinhos?

Imagem: Blog do Vavá da Luz
Não satisfeito em andar nas trilhas de alguma mata, nadar, pescar em rios ao som de pernilongos, de escalar o morro de pedra existente no bairro onde morávamos, ainda exercitávamos a musculatura dos braços à moda Tarzan. Em uma encosta, encontrávamos algum cipó e fazíamos de balanço.  Lembro-me que em um destes cipós, o ponto final do pêndulo era a copa de outras árvores. É claro que tínhamos o cuidado de cortar as taquaras e tocos que ficavam em baixo, mas eventualmente algum tombo ocorria. Enfim, muro de escalada, com cinto de segurança, não sabíamos que existia.

E falando em arte, quando chegava agosto, o mês do vento, nuvens e urubus em danças circulares disputavam o céu com pipas, raias e bidês. Algumas de papel de seda e paina, outras feitas com plástico de farinha de milho ou de carne (que era mais fino e melhor). Lembrando que os pacotes de arroz eram reaproveitados e utilizados como mala escolar (naquela época já despontava a consciência ecológica! ). Mala Positivo era sonho de consumo.

E falando em escola, para irmos e voltarmos esperávamos a carona da professora. No entanto, a dona (com muitas a chamavam) não passava de carro. O que fazíamos era uma procissão de crianças que a acompanhava a pé até chegarmos na escolinha. Diferente de hoje, não havia transporte escolar gratuito assegurado por lei. Andávamos! Mais uma vez, pasmem: andávamos!

O ensino não era obrigatório, mas quem persistia, tinha vontade de aprender. E parece que aprendíamos com muito mais qualidade. Merenda escolar (almôndega, PTS, “Quick”) foram novidades recentes. Em regra, o lanche gratuito sempre faltava, embora naquela época muito mais pessoas necessitassem. Mas cultivávamos hortas, levávamos o que podíamos para contribuir. Hoje, a merenda é determinada por nutricionistas, há regras específicas para aquisição e manejo dos alimentos, e o que temos ? Estatísticas comprovam que há mais casos de obesidade, de doenças metabólicas, etc. Não afirmo que é culpa da merenda, mas do modo de vida, do contexto !

Falando em carro, isso era coisa de rico. O capitalismo, alimentado pelo ciclo frenético do consumo e produção crescente não estava em estágio tão avançado para popularizar, como hoje, o automóvel. No máximo tínhamos uma Monareta. As “mountain bikes” são coisas bem mais recentes ! Eram horas e horas por dia viajando de magrela, mesmo que sem sair da quadra onde se morava. A maioria dos deslocamentos era feito a pé. Aproveitávamos o caminho para ir conversando e recebendo lições de vidas de nossos pais e, é claro, em algumas vezes, influências questionáveis de algum amigo um pouco mais malaco. Mas andávamos e íamos interagindo, armazenando lembranças e fortalecendo naturalmente nossa função cárdio-respiratória.

Hoje, só falta irmos de carro da casa até a garagem. E ainda reclamamos do preço do combustível. Mero resultado da lei da oferta e da procura, ou melhor, da relação entre consumo exacerbado e recursos limitadamente disponíveis.

E entre os recursos limitados, o principal é a vivência. Não sei se ao escrever esse texto tive uma crise saudosista, mas parece que o passado foi melhor. Parece que a minha geração (anos 80) viveu muito mais do que as gerações futuras viveram ou vão viver. Parece que a vida atual é muito superficial, baseada em ter, mais suscetível às dificuldades. Uma verdadeira geração que foi criada sob a égide dos direitos.

O que dizer então da vida que nossos pais ou avós tiveram ? Quantos valores, quantas vivências as primeiras décadas de 1900 devem ter trazido ? Quantas dificuldades, quantas lutas ! Como é necessário, portanto, valorizar estas gerações passadas por tudo que nos legaram. É uma atitude de respeito aos nossos antepassados, aos nossos pais e a nossa própria história, pois sendo criados por eles, somos resultado destas memórias.

E o nosso passado é que nos molda hoje e nos moldará amanhã. Não se trata de refutar o hoje, de ser avesso às tecnologias, às conquistas sociais, aos novos padrões culturais. Trata-se apenas de lançar um olhar crítico sobre o que de fato melhorou e o que apenas mudou. Trata-se de ponderar o que realmente é importante em nossa vida. Ponderar se não estamos vivendo de forma automática na superficialidade das mudanças cada vez mais rápidas. Trata-se de respeitar a nossa própria história, nossa vida. De ter em nossas mentes e em nossos corações momentos, que no final, é o que restará. Momentos estes marcados pelos pais, pelos amigos, por muita coisa que já se foi, mas que continua intrinsecamente em nós. Cada um com suas lembranças, com seu mundo que ficou gravado.

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