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O Controle Social e os Justiceiros Virtuais

Constata-se que hoje, com a democratização das informações, facilitado pelo acesso à internet, pelo maior grau de escolarização da população, pelo fortalecimento do espírito cívico, a fiscalização e o controle social (clique aqui e veja o que é controle social), especialmente da gestão pública, estão cada vez mais contundentes.

Com o advento e massificação das redes sociais, por exemplo, a preocupação da sociedade com os problemas da administração da "coisa pública" se amplificaram exponencialmente. Um dos exemplos são as críticas e reclamações postadas diuturnamente no Facebook®, expondo crises e falhas, ou às vezes, meros descontentamentos subjetivos.

As postagens e comentários exigindo melhorias e fazendo cobranças, embora salutares para o aperfeiçoamento de muitas questões, beiram, em alguns casos, a uma simples oposição político-ideológica, e neste ponto, como em qualquer circunstância onde predomina o exagero ou a parcialidade, é preciso ponderar os aspectos positivos e negativos, evitando que uma ferramenta que pode ser útil para o desenvolvimento social e crescimento da eficiência e qualidade se torne um problema.

Um dos pontos nevrálgicos está em saber distinguir, entre o emaranhado de postagens, críticas, reclamações e até sugestões, aquelas que procedem, que representam uma visão mais próxima da objetividade dos fatos, daquelas que são opiniões repletas de valores, representando interesses, preconceitos ou visões de mundo contaminadas pelas ideologias e preferências pessoais.
Outro ponto crítico está no senso comum, ou seja, na valorização das opiniões, das crenças, na visão imediata e acrítica que impede as pessoas de olharem além da superficialidade e de apenas repetir clichês.

Para confirmar a solidificação do senso comum nas crenças sociais, basta acessar o Facebook®  e vermos a predominância de tópicos criticando a classe política, seja pela corrupção, pela incapacidade de gerir a coisa pública, seja pela cor dos prédios públicos, seja por investir ou por não investir...

São críticas que se manifestam, na maioria dos casos, em conformidade com os interesses do autor da opinião ou de seu grupo, ou baseada em críticas abrangentes e generalizantes que se repetem ciclicamente e que fazem da conjuntura, sendo inerentes ao próprio sistema. Um exemplo são as críticas contra a burocracia e a formalidade. Se uma licitação é morosa, por exemplo, retirando a agilidade que supostamente marca a iniciativa privada e a liberdade de comprar o que quer a hora que quer, por outro lado, é este processo que garante condições de igualdade e isonomia a todos os fornecedores, possibilidade o controle interno e externo dos atos e o alcance da proposta mais vantajosa para o interesse público, além da fiscalização por parte da sociedade, baseada na publicidade ampla dos atos.

Há duas questões que poucos refletem antes de tecer as críticas e que merecem uma atenção antes de traçar as generalizações e apontar os culpados quando se culpa a classe política pelos problemas sociais:

  1) Quem votou nos políticos ? E com que medida os atributos dos candidatos foram mensurados ?

   Aqui surge espaço para uma discussão que extrapolaria os limites desse texto, mas que, em linhas gerais, se refere ao paradigma estabelecido na sociedade de que a maioria dos políticos são interesseiros, corruptos, falazes, etc. Seria reflexo da sociedade da qual eles saem ? E isso não é uma afirmação particular. Basta pesquisar no Google Imagens o termo "político" e veremos o teor implícito nas imagens. Para facilitar, clique aqui. Será que não há uma reprodução de crítica generalizantes ?

    2) A segunda questão é: Você está satisfeito com a qualidade dos serviços privados que paga para obter ? E você desgasta diuturnamente a imagem destas empresas e de seus gestores nas redes sociais ?

Muitos  reclamam da qualidade dos serviços públicos. Chegam a ser preconceituosas as críticas  e charges que encontramos na internet desvalorizando o que é público.

Vejamos o exemplo da Educação. Será que aqueles que tecem as críticas quanto à qualidade do ensino acompanharam a evolução do IDEB Nacional, do Município e especificamente das escolas, tendo o cuidado de considerar as especificidades regionais, sociais, econômicas, etc. que influenciam no desempenho ? 

Será que analisaram os índices de aprovação e reprovação das Universidades que formam os professores, a evolução dos índices de analfabetismo ? Será que analisaram a importância da participação da família ou apenas consideram que é função do Estado criar e educar ? Enfim, são N variáveis que impactam na qualidade do ensino público. Ensino que faz a escola extrapolar em muito a função de simplesmente ensinar, colocando-a como agente ativa em uma série de questões que adentram seu espaço, inclusive as sociais.

A participação dos pais na educação escolar é o exemplo mais claro do efeito psicológico de que "aquilo que vem de graça" não é tão bom quanto aquilo que pagamos. Será que os pais que pagam colégio particular para os filhos (sem generalizar) não exigem mais dos mesmos ?

A saúde é outro exemplo. São gerais as críticas contra a saúde pública. Mas não precisa muita pesquisa no oráculo Google para encontrarmos problemas com os Planos Privados de Saúde. A associação Paulista de medicina, por exemplo, mostra que 77% das pessoas que utilizaram os serviços dos planos de saúde nos últimos 2 anos, tiveram algum problema no atendimento no estado de São Paulo. Fora aqueles que não reclamaram...Mas por que não reclamaram ?


 Parece que está na cultura do brasileiro reclamar de tudo que é público. Pagamos caro por determinados serviços privados, somos muitas vezes mal atendidos, recebemos produtos defeituosos, e embora (raras vezes) busquemos nossos direitos, não vemos as páginas das Redes Sociais repletas de críticas e reclamações contra as empresas. Também não é comum ver críticas contra a pessoa dos gestores dessas empresas em amplitude tão grande quanto as reclamações torrenciais contra aquilo que é Público.


Será que isso se deve ao fato de que "mexer com a imagem" de uma empresa tem contrapartida, e ao passo que criticar os políticos e a administração pública é sinônimo de ser crítico, de ser cidadão ?

Parece que está arraigado na cultura do brasileiro criticar aos políticos, gestores da coisa pública, e por extensão, criticar tudo que é público. Mas é fundamental lembrar que gestores tem a função de tomar decisões. E nem sempre as decisões que atendem aos anseios da coletividade se enquadram com  nossas expectativas pessoais. Como diz o ditado: nem Cristo agradou a todos !

O que ocorre é que qualquer decisão que um gestor público tome, ela será critica (por alguém). E mesmo que ele não tome decisão alguma, também será criticado ! É óbvio que se trata de um direito do cidadão (detentor de direitos políticos), de uma faculdade do indivíduo, inerente ao próprio ser humano, talvez. Mas qual a finalidade, qual o benefício da crítica pela crítica ? Realmente pensamos na coletividade ou nos interesses de grupos e individuais mascarados sob argumentos que os estendem como se coletivos fossem ?

Solução mais lógica estaria em ponderar nossos atos enquanto cidadãos, se atentar para nossas responsabilidade e deveres, que os direitos virão naturalmente. Enquanto isso, a empresa faliu porque o empresário gastou demais, é culpa do Governo. Choveu demais, o morador jogou lixo na sarjeta, deu enchente, é culpa do governo. A gasolina subiu, a geada matou as hortaliças, a qualidade do ar piorou, tem engarrafamento, tudo culpa do governo....afinal, é melhor culpar alguém do que a nós mesmos. 

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